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sábado, 20 de junho de 2009

Made in Mercedes: A era das Corporações

Com a globalização, a expressão “economia nacional” caiu por terra. Agora, as atividades internas das empresas estão divididas pelo mundo, em busca do lucro. As multinacionais ganharam um poder tão grande que estão se tornando organizações independentes de fronteiras territoriais. Nada é capaz de vetar as decisões desses gigantes, nem mesmo os Estados, que agem como se fossem subordinados ao capital e não aos cidadãos.

As empresas se tornaram verdadeiras nações, que têm como cidadãos os consumidores. Os funcionários fazem com que a “máquina estatal” se locomova. Alguns cuidam de sua imagem e relações exteriores com outras empresas. Outros, da parte jurídica. Mas poucos dentro dela questionam o porquê de suas decisões. É como se ela fosse uma força maior, coercitiva, que guiasse todos na direção de um bem comum: o lucro.

Porém, esse lucro não beneficia a todos, mas fica concentrado entre um grupo pequeno de pessoas. No fim das contas, a economia se tornou tão devastadora, que recruta pessoas para trabalharem contra seus próprios interesses e em benefício de poucos. Muitos fazem isso sem consciência, o que torna o sistema ainda mais cruel. Um exemplo é a mão-de-obra barata, que as empresas buscam em países de terceiro mundo. Ou quem consome seus produtos e venera suas marcas, contribuindo sem saber para o aumento da desigualdade.

Os que ficam excluídos são os perdedores globais, uma massa enorme de pessoas isoladas pelas corporações. Eles se organizam de maneira tão difusa quanto elas. Máfias que tomam proporções globais, o tráfico de drogas que utiliza uma mão-de-obra ignorada pelo mercado e o terrorismo. Tudo isso forma uma grande bomba-relógio. É um sistema autodestrutivo, até porque para mantê-lo seria necessário fazer uso da infra-estrutura do Estado. Mas como fazer isso se o capital está cada vez menos concentrado nele?

Para sair dessa lógica, deveríamos criar uma organização também global, mas com outros objetivos. O enfoque deve ser o bem-estar das pessoas, não o lucro. Essa reversão de valores não será fácil. Talvez estejam esperando que uma catástrofe aconteça para agir. Será que a crise, o terrorismo e a miséria que temos hoje não são o bastante?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mais perdedores...

Em “Perdedores Globais”, Kurz chama atenção para as mudanças provocadas pela Globalização e para o fato de que tanto a política quanto a ciência econômica permaneceram apegadas a velhos conceitos, que já não correspondem mais à realidade.

Se no passado o comércio externo restringia-se a um plano secundário, a partir da década de 60 essa lógica começou a mudar. Nas décadas seguintes, o mercado tornou-se cada vez mais único e global.

Com a internacionalização do capital, ocorreu também uma internacionalização das marcas. Um carro alemão, por exemplo, tem essa nacionalidade não porque foi feito lá, mas sim porque a sede da marca está no país. A fabricação das peças, no entanto, é feita em diversos lugares, assim como a montagem, e ele será vendido em qualquer lugar do mundo que possua uma classe com poder financeiro compatível com o seu preço.

Essa divisão internacional de trabalho realizada pelas empresas multinacionais reflete uma lógica em que não há mais uma estratégia de desenvolvimento econômico nacional, o capital não tem mais uma intenção de desenvolver e manter o Estado. O dinheiro gerado por uma fábrica Argentina não será destinado a esse país, mas será repassado a um empresário alemão, por exemplo. E se o Estado tentar tirar a sua fatia, taxando em excesso a mercadoria, vai perder a empresa, que pode se instalar em outro local. Assim, todos os países acabam sofrendo com isso, em maior ou menor grau.

Fica evidente que os governos nacionais perdem a capacidade de esgotar os recursos tributários da economia interna, de estimular o crescimento e, com isso, de assegurar bases fundamentais de sua legitimação. E, devido à falta de recursos financeiros, abandonam à sua própria sorte uma parcela cada vez maior da população, roubando-lhe o direito à cidadania.

Vale lembrar que nossa taxa de miséria se assemelha à de países como Panamá, Botsuana, República Dominicana e Guiné. Os jovens brasileiros apresentam a pior taxa de escolaridade da América Latina, empatando com Guatemala, Honduras e Nicarágua. Apenas quatro de cada dez jovens com idade para cursar o ensino médio estão matriculados. O desemprego cresceu nos últimos anos, e bateu recordes. A taxa de desemprego dobrou em relação à existente na década de 80.

Das 500 maiores empresas globais, 420 possuem operações no Brasil. Hoje, os bens das empresas multinacionais instaladas no país chega a quase 1 trilhão de reais, e seu faturamento anual atinge 500 bilhões de reais. Elas empregam 1,7 milhão de pessoas. Impossível não concordar com Kurz quando ele afirma que nos falta a globalização de uma nova crítica social.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Os perigos da economia global

Por Bárbara Silveira

No livro “Os últimos combates”, de 1994, o ensaísta alemão Robert Kurz analisa o sistema político e econômico das sociedades modernas e contesta alguns acontecimentos que são tidos como sucesso, como a Nova Ordem Mundial ou a globalização.


Mais precisamente, no capítulo “Os perdedores globais", Kurz destrincha estes dois últimos conceitos e também mostra que o caminho pelo qual a sociedade está seguindo, através do capitalismo financeiro, trará duras conseqüências ao bem estar mundial e ao futuro das nações.

ECONOMIA GLOBAL

Kurz inicia o seu texto falando sobre a economia nacional, que a partir da década de 80 deixou de existir para dar espaço ao mercado global. Para o filósofo, essa mudança ainda não teve um análise séria e é isso que ele tenta fornecer ao leitor, durante seu breve e profundo texto.

Com o início deste novo modelo de mercado, Kurz demonstra que, além da exportação de mercadoria, também se fez necessária a exportação de capital. Ou seja, cada país do globo, hoje em dia, depende da economia saudável de seus parceiros de negócio. Deste modo, uma economia nacional se torna dependente de outra; assim unificando os mercados.

Vide a recessão que o mercado mundial está enfrentando no momento. Ao passar por um momento de dificuldade, a economia dos Estados Unidos, uma das maiores potências mundiais, abalou a estabilidade de diversos países, pois todos dependem, de alguma maneira, do capital norte-americano.

OS PERDEDORES

Entretanto, neste cenário, “as diferenças entre os países pobres e ricos são lentamente niveladas, mas não em termos de bem-estar geral”, diz Kurz. Isso porque neste modelo sempre terá alguém perdendo, “os perdedores globais”.

Com as novas tecnologias e racionalização dos meios de produção, a força de trabalho foi perdendo a sua importância. E os mais afetados são os países em desenvolvimento que, como Kurz cita, possuem salários baixos, leis generosas e impostos baixos - um belo atrativo para as multinacionais.

“O capital estrangeiro não visa mais ao desenvolvimento do pais como um todo e é preciso atraí-lo com a redução de impostos e outras regalias”, afirma Kurz.

Além do mais, para o autor, estes Estados “imperialistas” não se interessam mais pela anexação territorial. “Afinal de contas, de que servem as enormes regiões assoladas pela pobreza, cuja população não pode mais ser utilizada?”, questiona o filósofo.

CONSEQUêNCIAS

Para Kurz, as consequências desta nova ordem mundial, “sem dúvida, são absurdas e perigosas”. Cada vez mais, o Estado tem menos força e, quando ele ameaça tomar alguma atitude para minimizar as atitudes desenfreadas do mercado, as empresas globalizadas ameaçam sair do país e ir para outro lugar.

Com um tom de clarividente, Kurz analisa quais serão os reflexos deste sistema econômico. “Num futuro próximo, em cada continente, em cada país, em cada cidade existirá uma quantidade de pobreza e favelas contrastando com pequenas e obscenas ilhas de riqueza e produtividade

Os Estados, devido à falta de recursos financeiros, abandonam à sua própria sorte uma parcela cada vez maior da população, roubando-lhe o direito à cidadania”, prevê Kurz. Além disso, o autor afirma que os antigos países imperialistas mobilizarão uma “polícia mundial” contra os perdedores globais, para assim “garantir condições sociais condizentes as ilhas de riquezas”.

SISTEMA AUTO-DESTRUIDOR

Ao ler este capítulo, a impressão que se tem é a de que o capitalismo financeiro possui um sistema interno tão complexo e agressivo que, algum dia, ele mesmo causará o seu fim. Não como um suicida, que premeditadamente se mata, mas de uma maneira cega e burra e por causa de sua enorme ânsia por mais.

Em um trecho do texto, quando Kurz descreve a ausência de controle do Estado sobre os mercados globais, o autor diz: “a globalização, podemos concluir, tira do poder do Estado os meio financeiros imprescindiveis para o próprio desenvolvimento da globalização”.

Ou seja, a soma de um Estado ávido por reservas mais um mercado que visa explorar o local que se instala não pode resultar em algo saudável para a população e para a economia das nações. Um novo modelo se faz necessário.

domingo, 14 de junho de 2009

Globalização de quê?

Globalização. Todo mundo um dia na vida já ouviu esta palavra, mas até aí, isto não que dizer que o seu significado esteja claro. Multinacionais, ações na bolsa, investe aqui, investe ali, crise, dólar alto. Ainda hoje, a economia é um assunto bastante discriminado nos meios sociais, sejam eles a mídia ou uma roda de amigos. Sites como o da revista Época Negócios não são tão acessados quanto aqueles que falam da vida das celebridades. E o mesmo acontece com as revistas, os jornais, a televisão.

O ensaio de Roberto Kurz “Perdedores Globais” analisa a crise em que a ciência econômica entrou quando o mundo começou a se tornar utopicamente globalizado. Utopicamente porque os resultados dessa nova ciência política trouxeram desempregos, desvalorização da força de trabalho e do poder de compra nacional, falta de garantias para investimentos, ou seja, aumentou a desigualdade social. Os ricos ficam mais ricos e os pobres permanecem pobres. Acabou a ilusão da ascenção ao primeiro mundo aos países subdesenvolvidos. O terceiro mundo permancerá onde está. Ilhas de riquezas surgem nos países e a pobreza é acentuada até mesmo nas grandes economias mundias.

Kurz disse que “A globalização de uma ‘economia da minoria’ tem como consequência direta a ‘guerra civil mundial’, em todos os países e em todas as cidades.” Um exemplo dessa globalização é a crise econômica em que o mundo entrou em 2008. Nenhum país escapou dos aumentos nos preços dos artefatos importados ou deixou de demitir massas de funcionários por não conseguir pagar seus salários. Uma vergonha para o mundo tão “lindamente” globalizado em que vivemos. Essa crise terrível não só afetou as grandes empresas, as multinacionais do mercado, como também abalou estruturas familiares. Desemprego, aumento dos preços no mercado. A economia doméstica precisou que a sua administração fosse repensada e, assim, ocorresse o corte das regalias em que nos enfiamos todos os meses.

O modo de pensar do ser humano é desprezível e egoísta. Pensar no horror que é não poder se endividar nos inúmeros cartões de crédito a juros altíssimos por mês, nos torna superficiais e insensíveis para com o resto do planeta. Não nos confomamos com essa situação, achamos um absurdo as demissões em massa. Mas alguém faz algo para mudar? Quem sai da sua bolha e deixa de olhar para o próprio umbigo em prol das comunidades carentes, que realmente estão sofrendo com seus trabalhadores, aqueles que são o nosso alicerce, desempregados? Como disse Kurz, “o que nos falta, na verdade, é a globalização de uma nova crítica social.”

sábado, 13 de junho de 2009

A falsa imagem da globalização como um degrau para o progresso

A globalização é uma palavra que invadiu discursos progressistas e desenvolvimentistas defensores da implementação de uma “nova ordem”, de superação do passado. Os caros custos sociais e ambientais se justificam pela necessidade de mudança, da criação de condições para a adaptação aos requerimentos do capital internacional.

Em meados dos anos 1960 tem inicío o esgotamento do esquema de produção econômica fordista. Os mecanismos e instituições que permitiam que se atenuassem as contradições e desequilíbrios do sisema vigente passaram a ser obstáculos ao seu crescimento: a organização da produção, o pacto entre capital e trabalho, - com salarios, segurança e condições de trabalho - orquestradas pelas organizações sindicais e pela interferencia do Estado keynesiano de bem-estar-social. Tudo isso foi sustentado pelo modelo de consumo de massas, da generalização de um estilo de vida que transpassa a idéia de que há um compromisso coletivo, de estarem todos no mesmo barco, de tal forma que o crescimento da riqueza seria positivo para todos: a idéia de que é preciso primeiro crescer o bolo para depois reparti-lo.

Quando estes fatores passam a impedir um crescimento maior, torna-se necessário mudar algumas regras do jogo, para que se possa seguir alcançando aqueles mesmos objetivos: garantir níveis máximos de crescimento e acumulação. A regulamentação e a elevação dos custos sociais de reprodução da força de trabalho levam a uma crise fiscal do Estado, frente à crescente mudialização do capital. Isso faz com que haja uma queda nos níveis de produtividade, e uma consequente diminuição nas taxas de rentabilidade, com a deterioração do ritmo de crescimento e acumulação do capital.

A mundialização da economia passa a ser a mudança necessária para a recuperação destes ritmos de crescimento. Neste sentido, a marginalização de algumas regiões, em detrimento de crescimento de outras faz parte da estratégia global. Há a passagem de uma estrutura vertical, do fordismo, para um modo de produção horizontal, mas que não deve ser confundido com uma dissolução do poder e do controle do capital, que são, ao contrário, reforçados com a ajuda das novas teconologias de informaçao e comunicação. Esta nova estrutura vem com uma concentração ainda maior do capital, que passa a internalizar as externalidades, filiarizando as atividades periféricas, transformando custos fixos em variáveis ajustáveis com maior facilidade a partir de um maior ou menor grau de subcontratações em regiões periféricas e satélites.

Fazem parte deste sistema também os investimentos diretos para as fusões estratégicas, com a penetração em mercados externos para a exclusão dos concorrentes em escala mundial. Estas fusões têm um papel chave no enfrentamento da crise uma vez que além das motivações de caráter estratégico frente ao mercado global, também permitem a redução de custos e a recionalização da produção em mercados periféricos. Com a criação destas grandes empresas transnacionais outro fator importante é o controle que elas exercem sobre a suas cadeias de valor, que se tornam dependentes, pois tem sua produação centralizada. Com isso contribuem para a flexibilizar custos fixos em variáveis.

Com a globalização a ideologia imposta foi a de que os mercados regionais teriam finalmente a oportunidade de se integrar às vias do desenvolvimento, caso soubessem aproveitar as oportunidades. A idéia de que a globalização não diferencia territorios foi articulada neste sentido, fazendo com que a competitividade se tornasse agora uma questão territorial, e permitindo com que os mercados regionais passassem por cima de qualquer obstáculo social ou ambiental para aumentar a sua competitividade e garantir a entrada do capital estrangeiro. Esta organização competitiva dos espaços condiciona uma maior acumulação de capital nas empresas e territórios centrais, que passam a usufruir de inúmeros benefícios e de acúmulo de produtividade e eficácia entre os atores das cadeias produtivas. Criam-se regiões com cencetração de atividades, sempre reforçando a marginalização das regiões que não de enquadrem nesta lógica competitiva.

O mercado alcançou status de grande juiz da economia mundial, sem qualquer tipo de trava ou regulação, tendo subordinado governos locais à lógica da eficácia econômica. Desta ocupação global, apenas uma pequena parte se torna ganhadora e a grande maioria sai como perdedores globais. E então, se percebe que já não estam (ou nunca estiveram) todos no mesmo barco, e que não existe uma relaçao entre progresso econômico e progresso social. Vive-se diante do grande fracasso do trabalho da mão inivísivel como conciliadora de interesses. O bolo cresceu, mas não foi repartido.

Dentre os saldos da globalização estão: a ilegibilidade, como caracteristica associada a esta nova fase do capitalismo, na qual há uma enorme dificuldade de leitura e compreensão do modelo, junto a uma grande densidade de fluxo de informação que dificultam a interpretação da realidade a identificação das posições dos agentes. Hipermobilidade, com uma integração de fluxos dificultando a localização e responabilização dos problemas. Mercatilização do tempo e do espaço e criação de uma economia intangivel, que tem limites traçados pelo virtualidade, mas que não corresponde a uma esfera real e limitada de recursos materiais.

B. Sarue

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A eterna repetição dos perdedores

Foto: Gianne Carvalho, viaduto, Rio de Janeiro

Por João Villaverde

O texto "Perdedores globais", de Robert Kurz, coloca duas questões cruciais para o debate social dos tempos atuais: a primeira questão é quanto ao surgimento de empresas multinacionais e a consequente desintegração das regras nacionais para dar cabo de regulação e controle das empresas, que não mais respondem a uma pátria única. O segundo ponto é quanto a perda de poder do Estado nacional, abrindo uma veia crítica distinta da crítica marxista clássica, depositada no papel do Estado como chancela do capitalismo concorrencial (para usar termos leninistas).

No presente artigo, discutirei as duas questões proeminentes de "Perdedores globais" de maneira conjunta - até porque são complementares - , tendo a problematização da globalização do século XX como pano de fundo.

Num primeiro momento, localizado pelo autor nos anos 60 do século XX, a internacionalização das empresas não foi capaz de atingir a coesão tradicional dos Estados nacionais, isto é, o poder estatal permanecia concentrado no sistema, controlando, seja por meio dos impostos, seja por meio de sua força como aparelho de ideologia, a racionalidade do desenvolvimento das instituições privadas nacionais. Estas começaram a ganhar musculatura internacional especialmente a partir dos anos 80 quando o centro do sistema capitalista mundial, Estados Unidos e Inglaterra, promovem uma verdadeira revolução dos modos - culturais e econômicos - e regras do jogo.

A partir de Ronald Reagan (EUA, 1981-1988) e Margaret Thatcher (1979-1990), o sistema capitalista passa a desinchar o Estado e a liberar e afrouxar sua regulação - nacional - sobre as empresas e, mais genericamente, sobre o mercado. Este torna-se global, conforme o modelo (denominado "neoliberal") é adotado por outros jogadores do sistema.

É a partir daí que "a fidelidade à economia nacional vai por água abaixo", conforme anota Kurz. "Não há mais nenhuma estratégia de desenvolvimento econômico". A economia privada avança todos os limites, ultrapassando barreiras nacionais - tidas como supremas no período pós-Segunda Guerra - e impulsionando o comércio exterior e os mercados financeiros para o centro do debate. Comercializar e fazer negócios com diferentes nações e, ao mesmo tempo, operar em diferentes praças do mercado financeiro mundializado passa a ser tudo o que importa. É essa maneira de operacionalizar e racionalizar o sistema que é embutido em ideologia - que, evidentemente, precede tudo isto - e a partir daí passa a ser reverberada por todos os atores do sistema: os aparelhos privados de ideologia, conforme destacara Antonio Gramsci, tendo a frente as empresas internacionalizadas, os bancos de investimento e a mídia, que se torna global também, por meio do desenvolvimento tecnológico das informações, transmitidas por televisão e pela internet.

O Estado é cada vez menos o "capitalista ideal", conforme denominou Marx. Ele passa a perder o poder de chancela sobre o estoque do capital privado nacional, passando a funcionar como peão do sistema, e não mais como chefe. Seu papel agora é outro: alavancar a plataforma de crescimento das empresas, abrindo caminho - de ordem econômica produtiva e fiscal - e sensibilizando diferentes atores. Sua forma é dada pelo mercado, nacional e internacional, que passa a ditar o Estado como manivela de lucros e manutenção do jogo. A velha "economia política" transforma-se em "política econômica".

O Estado agora é mínimo e, finalmente para uns, é capturado.

Com a diminuição da competência do Estado, desfaz também a contradição entre "libertação nacional e imperialismo". A maioria dos regimes fundados na acumulação nacional fracassou. Grande parte das indústrias estatais, consideradas pouco lucrativas pelos padrões internacionais, é desativada ou privatizada, isto é, comprada geralmente por empresas globalizadas.

No Brasil, a união entre dois players nacionais para formar uma das maiores cervejarias do mundo - a Ambev, em 1999 - foi "vendida" pelos aparelhos, privados e estatais, de ideologia do sistema como preponderante para a inserção, das empresas e do Brasil nação como consequência, no mundo globalizado. A união entre as empresas - gigantes já - Brahma e Antartica serviria ao Brasil como "ganhos de escala", para se utilizar do linguajar industrial incorporado pela análise financeira globalizada, para formar musculatura na disputa do comércio internacional. Cinco anos depois o conglomerado brasileiro foi vendido para uma mega-empresa da Bélgica, criando a Inbev, a maior cervejaria do mundo. O capital passa a ser brasileiro e belga, com soberania deste último, numa operação agilizada por bancos de investimentos americanos e franceses, todos com acionistas de diferentes continentes.

Do outro lado, há o capital financeiro autônomo, sem pátria, que ruma de um país a outro sem qualquer distinção cultural ou social. Sua preocupação é uma só: acelerar lucros. O capital estrangeiro não visa mais ao desenvolvimento do país como um todo e é preciso atraí-lo com a redução de impostos e outras regalias. Entra-se na amarra do Estado pós-moderno, de nossos tempos atuais. O papel do Estado, conforme definido e delimitado pelo mercado globalizado, é um só: diminuir a regulação sobre o capital estrangeiro, isto é, cortar impostos sobre o lucro e taxas sobre a operação. Ao mesmo tempo, deve transformar o país (entenda-se por isso, o mercado financeiro nacional, que é exemplificado pelas bolsas de valores e de negociações em mercados futuros) em uma grande vitrine com preços convidativos ao capital sem pátria.

Novamente, podemos exemplificar esse jogo analisando o papel do Estado brasileiro a partir de 1990 e 1991: a elevação das taxas de juros a níveis estratosféricos, que remuneram o capital internacional e a retirada das regras e do controle sobre operações deste tipo. Poucos anos depois, com o controle da inflação de preços - que retirava boa parte dos lucros com taxas de juros - as operações com juros no Brasil tornam-se únicas: lucro fácil com nenhum risco. Finalmente, o Estado brasileiro toma para si a missão de controlar a volatilidade da taxa de câmbio, mantendo a moeda em patamares estáveis - e valorizados - que ajudam a ampliar o lucro das operações do mercado financeiro.

"O resultado, porém, é a diminuição do número de empregos, causada pela racionalização, a evasão dos lucros e a ausência de garantias para investimentos", vaticina Kurz. Com a crise econômica mundial que vivemos, originada no centro do sistema (os Estados Unidos) e amplificada pelos jogadores majoritários (os países da União Europeia) será possível reverter esse jogo?

A resposta, como veremos, está no passado. Afinal, o sistema é uma eterna repetição de si mesmo.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Brasil não será um dos perdedores globais

Charge retirada do site "Retratos do Brasil"


Passado o trimestre de insegurança, parece que a sensatez voltou aos mercados. Os investimentos externos no País dobraram em abril. Os estrangeiros têm aplicado recursos tanto no setor produtivo quanto no mercado financeiro. A maior resistência à crise e a alta taxa de juros aplicada no Brasil alavancam os investimentos. Como aqui os juros caem em doses homeopáticas, entrar com dinheiro é um dos melhores investimentos do mundo.

Os últimos seis meses foram o pior período econômico para o mundo desde o final da Segunda Guerra, em 1945. É a conta da farra financeira que explodiu de uma vez em setembro de 2008. Economistas dizem que os sinais de melhora são frágeis. Porém, dólares continuam entrando no Brasil.

O problema é que a valorização do real barateia os produtos importados, o que enfraquece a indústria nacional e pode causar desemprego. Além disso, o produto brasileiro fica mais caro no exterior, o que dificulta as exportações. Mesmo asssim, o Brasil está entre os 15 países mais avançados nessa área. Além disso, com o dólar em baixa, a inflação é controlada e as dívidas em moeda americana ficam com custos reduzidos. O ideal é que a barreira dos R$ 2 por dólar não seja ultrapassada. O Brasil, com uma economia mais diversificada, deve se sair melhor na crise do que economias em que o sistema financeiro era o mais forte (Europa e EUA) e países exportadores (China e Rússia).

O Brasil também se destaca pelo aumento da distribuição de renda e por tirar milhares de pessoas da linha de pobreza e incluí-las no mercado interno. Com o aumento do consumo, há um fortalecimento desse mercado. O País redistribui riquezas e incorpora grandes massas a um patamar superior de conforto e consumo. Já uma das dificuldades apresentadas ainda é a alta corrupção, que infla as contas do Estado e faz com que investimentos sejam menores na nação. Isso acarreta uma diminuição do crescimento.

A tendência da globalização é a acumulação de capitais. Porém, em épocas de crise, novas oportunidades surgem. Depois de dois anos seguidos de expansão econômica na casa dos 5%, não há, até o momento, previsões de recessão, mas é consensual que os percentuais de crescimento serão mais modestos em 2009. O Brasil sofre com a retração mundial do crédito. Com recessão nos Estados Unidos e na Europa, algumas opções para exportações não estão mais aptas. Por isso, a busca por novos parceiros e mercados é a solução. A China, inclusive, já é o maior parceiro comercial do Brasil. Com um mercado interno que tende a crescer e que recebe incentivos para o consumo a todo momento, já que tem uma boa linha de crédito, os chineses continuam consumindo. Apesar disso, é difícil alterar a cultura de exportação para a de consumo. Os chineses tendem a poupar, mas o momento é de gastar. Porém, como são muitos, o consumo continua em alta.

Para que não sejamos perdedores globais, o Brasil precisa exportar bens de alta tecnologia, para que empresas tenham confiança de trazer tecnologia para o País. O governo precisa estimular um ambiente de mais inovação no setor privado. Apesar da crise global, o Brasil é um país que pode se sair bem e chegar ao fim da tensão econômica melhor do que no início. O Brasil apresenta regras democráticas estáveis e um sistema financeiro sólido (com bancos tendo lucros em cima de lucros). Além disso, em comparação com os outros emergentes, chamados de BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil não sofre com conflitos étnicos ou religiosos, tem um único idioma e não enfrenta problemas de fronteira. Com a rápida urbanização do planeta, a demanda por alimentos importados tende a aumentar. A procura por petróleo também é evidente nas próximas décadas (já que a geração em massa de combustíveis alternativos ainda engatinha no planeta). O combustível fóssil é abundante nas costas brasileiras (pré-sal) e somos, inclusive, exportadores e auto-suficientes. Quando tratamos de commodities, estamos entre os cinco maiores do mundo.

O que pode bloquear a chance de sermos líderes é o fato de que os nossos serviços são defasados. Para que mudemos esse aspecto, é preciso investir em educação. A criação de padrões mais sólidos de aprendizado, formação de professores e o aumento do salário para os mestres são fundamentais. O combate à corrupção, a reforma do governo, a revisão das diferenças de renda, a garantia da segurança, a estabilidade de emprego para funcionários públicos e privados e, claro, a reforma da Previdência são outros desafios. O desenvolvimento do Brasil depende disso. A infra-estrutura precisa também ser revista. Os portos, as estradas e as ferrovias precisam de reformas e ampliações.

Com cada vez menos homens "cuspidos" do mercado no Brasil (que desencadiariam a crise do sistema mundial) e com o envelhecimento da população , os custos da segurança diminuem. É claro que ainda são necessários diversos investimentos e a inclusão de várias pessoas ao mercado, mas isso, com o tempo, tende a se consolidar.

Portanto, a economia mundial deixará de ficar limitada aos países ricos e ganhará nova distribuição. A longo prazo, com novos mercados e negociações, o capital não estará acumulado e não ficará sobre uma base restrita. A concorrência globalizada, com a crise, aumenta. Nesse ponto, o Brasil sai da crise como um vencedor global, ao lado dos BRICs.