Por Bruno de Pierro
Muitos dos conceitos do vencedor do Prêmio de Ciências Econômicas de 1974, o liberal Friedrich August von Hayek, têm como núcleo vital a idéia da espontaneidade. De acordo com essa lógica, a economia seria um sistema extremamente complexo, sendo que qualquer forma de planejamento sustentado e pensado por uma instituição centralizada (o Estado) deve ser abolida, tendo-se em vista que o sistema deve agir e evoluir de maneira espontânea. Verdadeira lógica constitúi o fato de Hayek ter influenciado diretamente a ex-primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher, para quem o Estado deveria ser reduzido e ceder espaço ao poder privado e para quem essa “coisa” de sociedade não existe.
Robert Kurz, no artigo O fim da economia nacional, procura mostrar que pensar, hoje, em “economia nacional” seria algo fora de moda, isto é, não constituiria mais uma realidade condizente com o que se verifica no chamado mundo globalizado. “A partir da década de 80, um novo sistema de referências surgiu com uma rapidez impressionante, impulsionado pelos satélites, a microeletrônica, a nova tecnologia em comunicação e em transportes, e pela queda dos custos energéticos”. Kurz fala, portanto, de um processo que quebrou as barreiras que limitavam a nação, fazendo evoluir um “mercado único e global”. Aos olhos do economista Hayek, esta “evolução” estaria obedecendo aquilo que sua ciência antes teria predito: o processo deve ser espontâneo. Tendo em vista que a ciência econômica está em crise, como sustenta Kurz, e se sabendo que algumas das teorias econômicas, por mais controversas que sejam, encontram vias de sustentação, perguntamo-nos então no que consiste o problema da economia. Seria pretensão em demasia querer apontar aqui algo como “a problemática da ciência econômica”, porém não o é querer, ao menos, participar do debate.
Basicamente, observa-se que os exemplos e os fatores que tornam evidente a transformação da economia de nacional para mundial, apresentados por Kurz, reforçam com êxito a idéia de que, com o passar dos séculos, a economia intensificou sua jornada de “virtualização” e de subjetivação. O que se quer dizer, portanto, é que o jogo econômico do sistema capitalista está na sua fase mais irracional possível, sobrevivendo em meio às transações bancárias via satélite, superioridade do capital especulativo em relação ao capital real, créditos e mais créditos... Via de regra, o dinheiro dos investimentos está no ar, flutuando; tornou-se irreal, diferente de sua circulação que, por sua vez, é o que determina o valor de ações que correm diariamente de uma bolsa de valores para a outra. Como afirmou certa vez Debord, chegamos naquele momento quando o próprio capital vira imagem.
Neste contexto, verifica-se o quão difícil se torna estipular qualquer certeza a respeito da qualidade científica da economia. Dentro do sistema globalizado, este “status” é questionado, em decorrência do que se observa com relação à falta de controle dos processos mercadológicos, que inclusive agravam outros campos da sociedade, como a política. Kurz acredita que “o Estado é cada vez menos o ‘capitalista coletivo ideal’ (Marx), com voz de comando ativa sobre o estoque de capital nacional. A velha "economia política" transformou-se em "política econômica". Quando a política deseja impor limites à ação desenfreada do mercado, as empresas globalizadas logo ameaçam com uma "Fuga do Egito". O próprio Hayek achava que a economia era uma ciência social, mas não deixava de afirmar que a propensão para imitar os métodos e procedimentos das ciências físicas na economia leva ao erro. Isto, portanto, traria o caráter não-científico à ciência econômica, uma vez que envolve uma aplicação mecânica e não-crítica dos hábitos de pensamento a áreas distintas daquelas em que foram formados.
Talvez o problema da crise econômica seja reflexo fiel de outra “crise” que se fixou na própria maneira de se pensar a ciência econômica. Se a evolução do que hoje compreendemos como política econômica chegou a um ponto em que determina praticamente qualquer ação política no âmbito global, temos um pensamento da economia ainda em descompasso com esse cenário. Não se trata apenas de se buscar saídas imediatas para que o fim seja alcançado, mas desenvolver novas linhas de análise econômica que priorizem a crítica do sistema e não somente medidas que estanquem o sangramento. Afinal, como já foi dito um dia, o tecnólogo quer melhorar tudo, mesmo não sabendo explicar como realiza tais ações; já o cientista concentra-se em trazer explicações, que muitas vezes podem não trazer melhoras a curto prazo.
*Bruno de Pierro é o cachorro normal.
terça-feira, 16 de junho de 2009
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