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sábado, 19 de dezembro de 2009

A Nova Enciclopédia

No embate entre a enciclopédia e o hipertexto, mais do que informação, formas de transmiti-la e capacidade de recebê-las, está a sociedade e as mudanças das quais é ao mesmo tempo causa e consequência.

Para qual geração saber que Ag é o símbolo da prata na tabela periódica é realmente fundamental? Para esta e a que virá logo em seguida parece não fazer diferença. Se o hipertexto não existisse hoje, ainda assim esta geração não colocaria tal conhecimento na enciclopédia. Tabela periódica não; história da MTV, com certeza.

Outro dia, minha irmãzinha de 12 anos disse, ao comentar sobre quais músicas poderiam tocar no meu aniversário: “tem aquele outro ritmo também, como chama? Ah, MPB”. Chico Buarque, para ela, é só um nome que, de vez em quando, permeia as conversas de adultos. Eu fico triste e, da mesma forma que minha mãe suspirava ao ouvir de mim, quando eu tinha 12 anos, que “Belchior é uma chatice”, percebo a próxima geração mais vazia e... sem poesia.

Então, tento olhar essas crianças “não informadas” mais de perto. Minha irmã nunca leu Shakespeare, mas, de tanta Hanna Montana e Jonas Brothers já tem um inglês fluente, com direito a gírias! Sabe apenas que uma vez, há muito tempo, existiu um cara chamado Marco Polo, mas, por outro lado, encontra os pontos mais impossíveis no mundo virtual em minutos. Ela pergunta se “o Pelé foi tudo isso mesmo”, mas é capaz de criar um jogo de videogame sobre futebol em uma semana.

Não é o nosso ideal de uma pessoa “informada”, mas é o da próxima geração. Assim, para se discutir o quanto de sentido o hipertexto roubou da informação, é preciso entender que é exatamente essa “informação relevante” que gera esse tal de “conhecimento”. Em Enciclopédia e Hipertexto. O Projeto, Olga Pombo diz que “no hipertexto não há, pura e simplesmente, qualquer sistema de seletividade”. Discordo, há sim. O problema é que a seleção sendo feita, diariamente pelos internautas, não é aquela que nós temos como a mais sábia. Mesmo no argumento da autora, de que “trata-se de uma seletividade que só funciona na medida em que o leitor é detentor de competências críticas de discriminação do eu é mais importante, de dispositivos subjetivos de determinação das boas e das más informações”, revela-se a mesma questão de que é a falta de competências necessárias para se obter uma boa informação que torna o hipertexto “um meio de diversão, distração e esquecimento” (Paulo Serra, Informação e Sentido) e não um ambiente democrático e de infinitas possibilidades onde novas competências talvez comecem a substituir, em sua ideia do que é de fato importante, informações antes tidas como boas e que agora são... descartáveis.

Não é a forma como a informação é transmitida ou a sociedade que a recebe. O hipertexto substituiu a enciclopédia porque o Homem de antes também foi substituído. Podemos preferir o passado e até sentir certa pena por uma sociedade que se direciona para um caminho que não temos como o mais acertado. Mas não podemos julgar esses novos indivíduos (e a parte de nós que sucumbiu às novas tecnologias) a partir do que costumava ser importante. Com base em um conhecimento que também ficou... démodé.

No filme Rebobine, por favor, do francês Michel Gondry (um diretor “sem memória”, como sua geração, e que veio do videoclipe), todas as fitas de uma locadora são desmagnetizadas e, para salvar o negócio, dois amigos refilmam tramas como Conduzindo Miss Daisy e 2001, uma Odisseia no Espaço, da maneira como eles lembram ser os filmes, e com recursos mais do que precários. O resultado, além de divertido, explica um pouco a questão do “descaso” pelo passado e da facilidade em substituir memórias. Um clássico do cinema, por muitos considerado uma obra-prima, é apreendido por dois “ignorantes” que de nada entendem de cinematografia, e transformado em outro filme, mais “fácil de entender” e divertido do que o original – e que lota a locadora de clientes. Um insulto a Kubrick ou uma forma de mantê-lo vivo para uma geração que nem de longe o percebe como gênio?

Paulo Serra, em Informação e Sentido, diz que tal abundância de informações oferecida pelos novos meios de comunicação resulta em “um querer saber não para saber mas para o ter sabido”. Pois é justamente o que muitos defendem como a “boa informação”, negligenciada pela massa sem capacidade para apreendê-la, que essa geração tem como um “saber só para ter sabido”. E cito outro exemplo, meu primo de 17 anos. Ele decidiu assistir a obra-prima de Kubrick, “de tanto falarem”. Dormiu na metade. E não porque lhe faltou competência para enxergar a “genialidade” do filme, mas porque, para a sua vida, sua rotina, para quem pretende ser, aquela obra não lhe diz nada.

E isso, de modo algum, significa a queda do médium, para usar o termo de Paulo Serra. Literatos e imprensa podem ter perdido parte de sua importância e influência, mas, ao mesmo tempo, justamente por conta da abundância de informação, são necessários mediadores que digam o que vale ou não a pena ser absorvido. Evan Williams, cofundador e diretor geral do Twitter, ao lançar o site, disse: “jornalistas são os curadores de conteúdo, com o papel de separar o joio do trigo”. “A adoção relativamente arbitrária de um ponto de vista”, caraterística da enciclopédia, permanece no hipertexto. A diferença é que talvez um ponto de vista antes subjugado agora seja o dominante e que aqueles dispensados, ainda que menor, também têm espaço.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Do universo paralelo da internet e sua versão ilimitada

A internet é a reunião de informações sobre diversos assuntos, informações essas que acabam por confundir e em pouco esclarecer. Isso porque o problema não está especificamente no meio, a maior parte dele se encontra no usuário das informações encontradas, dados que poderiam ser transformados em conhecimento caso o leitor os soubesse usar.

Ainda falta ao homem a disciplina, a paciência e um minuto de escuridão diante à luz do conhecimento para refletir em meio a tantas janelas de informações. Se na enciclopédia de Diderot e D’Alembert a barreira a se superar era a sociedade, a Igreja e os conservadores, como é apresentado no texto do professor Antonio Hohlfeldt, “essa prática apresentava uma dupla novidade e desafio: de um lado quebrava o parâmetro das poucas obras anteriores, mas plenamente conhecidas e institucionalizadas”, hoje o entrave para o conhecimento é o próprio homem.

A mídia virtual não encontra tamanha censura como a enfrentada pelos iluministas, um controle que tentava suprimir formas intelectuais diferenciadas. A internet encontra facilidades por não ter uma legislação vigente que abrange todas suas formas e possibilidades. Esse novo mundo proposto pela geração tecnológica acaba se tornando uma faca de dois gumes, na qual o indivíduo deve saber aproveitar o que tem nas mãos, porém sem a segurança e garantia de autoridade e fonte que outrora havia sobre os meios do conhecimento.

O próprio Diderot colocou que “por todo lugar, o público tem grande disposição de acreditar naquilo que lhe é relatado contra aqueles que governam; mas esta disposição é a mesma nos países de liberdade e de servidão”.

Esse pensamento colocado sobre a ampla rede da web poderia trazer a idéia de que na verdade, o homem ainda tem a mesma disposição ao que lhe é divulgado, a amplitude da internet pode ser um fator agravante no que diz respeito ao acesso do homem a informações equivocadas, contudo não é fator determinante.

Afinal, da mesma forma que Diderot e D’Alembert lutaram para colocar sua obra a favor da sociedade, documentos os quais acabaram por se tornar institucionalizados e vendidos por editoras a preços estrondosos; a internet também conseguiu atingir o público com bem menos limitações por se tratar de um veiculo interessante ao mercado atual. Ela não vive uma luta contra a burocracia ou o governo. Os que vivem essa luta são os próprios burocratas e legisladores que tentam colocar em vigor uma forma de organizar a rede, algo distante de se concretizar.

As informações implantadas no hipertexto, nas publicações em blogs, sites e redes social são trabalho do próprio usuário, ele escreve conforme seu intuito e seu desejo e, diferente da enciclopédia original, não obedece a um ritmo ou padrão, nem busca superar um obstáculo da sociedade.

Trata-se de um mundo paralelo sem governantes e coordenadores. Não é uma várzea total, pois por ser exatamente um universo tão amplo é que, além de fugir ao controle de algo maior, também depende do homem a busca por informações nessa gama abrangente de dados, e então cabe a ele decidir a que se disporá ter acesso e ao seu filtro pessoal, no que ele irá acreditar e aceitar.

O assustador desse mundo paralelo é que a informação pode se perder na rede virtual, mas nunca sumir. Se antes a Igreja ou o governo podia queimar livros ou trancafiá-los em mosteiros, hoje não se pode apagar um link de forma definitiva, a informação estará sempre lá, mais distante, menos visível e menos acessível, porém existirá solidamente até onde se sabe desse universo virtual.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O que o mundo prometeu?

Coordenada por D'Alembert e Diderot, "Encyclopédie" foi elaborada entre 1751 e 1780. Com base nos ideais iluministas, filósofos pretendiam, através do saber, criar o "cidadão esclarecido".



O acúmulo de saber e uma educação norteada pela razão deveriam, de acordo com o projeto da Enciclopédia, fomentar a capacidade de raciocinar de modo autônomo e a responsabilidade própria. Essa imagem de mundo excluía tanto a superstição e o êxtase religioso como a repressão por um governante absolutista. Assim, a Enciclopédia foi uma obra-chave do Iluminismo, cujo projeto era, supostamente, libertar o ser humano da "dependência autoimposta", como formularia o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804).



O cidadão tornado responsável através da educação e do saber teria direito a participar das decisões políticas de sua sociedade. Na visão de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), esse "cidadão esclarecido" é tão abrangentemente educado, que pode se submeter ao "contrato social" sem abrir mão de suas liberdades pessoais. Esse ideal de uma "vontade geral" (volonté générale) influenciou numerosos pensadores e filósofos do século XVIII. E perdurou por muito tempo. Hoje, passados pouco mais de 250 aos da criação do projeto enciclopedista, a internet é creditada como a evolução da reunião de todo o conhecimento humano. Mas o que é o conhecimento humano? E um homem esclarecido?



Exatamente partindo destas questões que se pode hoje, questionar o ideal enciclopedista como forma única de alcance do saber.



De acordo com “grande parte dos teorizadores da ‘sociedade da informação’ – que partilha, com os iluministas, da crença otimista de que o conhecimento tem um caráter auto-formador e emancipatório, tende a pensar que mais informação leva, necessariamente, a um acréscimo de conhecimento. No entanto, para outros autores como Postman e Baudrillard, o acréscimo de informação não só não acarreta um acréscimo de conhecimento como conduz, mesmo, ao seu decréscimo; assim, e para citarmos a conhecida fórmula de Baudrillard, ‘estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido’, em que à ‘inflação da informação’ corresponde uma ‘deflação do sentido’. Segundo esses pensadores, essa deflação de sentido deve-se, essencialmente, ao fato da "explosão da informação".

Na sociedade pós Apple, Microsoft, hiperlinks e Midiática, não é muito difícil atolar-se em centenas de palavras, tidas como informação. Ao sair de casa, todos se deparam com uma série de letreiros sobre diversos assuntos. Aquele que não abrir a internet - ou para os mais tradicionais, o jornal – e não conferir todas as manchetes do dia, pode até ficar alheio em rodinhas de conversas. A opinião também é fundamental. Sem opinião sobre um assunto o homem moderno não é ninguém. Não é reconhecido pelo outro. Por temer esse não reconhecimento, todos de munem de diversas ‘informações’, cada vez mais. Tantas, em tão pouco tempo, que o sentido torna-se esvaziado. Sempre vale lembrar casos famosos noticiados pelos jornais de todo o país: “Menina Isabella”, “Eloá”, “Escola Base”. Todos eles têm na desculpa da rápida informação a base para a desinformação.

Na última segunda-feira, o site do jornal O Globo publicou a seguinte matéria:

Polícia Civil faz operação em Costa Barros



RIO - Uma operação da Polícia Civil com várias delegacias especializadas está na manhã desta sexta-feira no Morro da Pedreira, em Costa Barros. Dois veículos blindados e um helicóptero estão no local.

Resta a pergunta: que tipo de informação é essa?



O projeto enciclopedista criou uma idéia única de conhecimento, que dentro de seus preceitos, parece muito igualitária até. Entretanto, após anos de desigualdades, não é esse caráter emancipador que podemos ver através dela. Mas sim o exato contrário. Um ser informado, de acordo com os padrões do projeto de D'Alembert e Diderot, obviamente, atualizado para os dias atuais, de maneira alguma pode ser considerado livre e politicamente ativo. Basta olhar, por exemplo, para a articipação política dos jovens, hoje, nas universidades.


Além disso, aqueles que não se alinham à essa linha de pensamento são excluídos. Não é necessário, nem exemplificar com pessoas desprovidas da alfabetização, basta pegar alguém que saiba ler, mas que não se adapte a internet, por exemplo.

O que resta desta reflexão, é na realidade, o questionamento de um futuro sobre a matriz do conhecimento e seu conceito. Será que continuaremos a viver numa sociedade em que a informação não passa de números, ou um novo projeto menos excludente será criado? Mais quantas décadas serão necessárias para que se perceba que o projeto da enciclopédia, tal qual foi interpretado, não corresponde as necessidades de uma sociedade igual e melhor, que é o que buscamos. Afinal, é isso que o mundo nos prometeu.

domingo, 22 de novembro de 2009

Memória, Razão e Imaginação

por Victor Luiz Moraes Esteves

É engraçado como as coisas acontecidas no passado se repetem no presente, ou já adiantavam como seriam as coisas no futuro. Me chamou a atenção o fato de que Borges situou o seu memorioso Funes no final do século 19, e a sua singularidade de não esquecer nada e ao mesmo tempo não dar sentido a tudo que sabia, ser hoje uma clara alusão ao poder mnemônico da rede mundial de computadores. Assim como o projeto enciclopédico, detalhado até o nível da chatice explícita pelo Prof Dr Antonio Hohfeldt, também se referir a um grande projeto da humanidade, mas que só agora, com a Internet, corre o risco de alcançar o seu objetivo. Como o objetivo era falar um pouco sobre a ligação entre os 4 textos, vou adotar um modelo de tópicos, que eu espero que facilite a leitura e, principalmente, a minha organização das idéias.
1. A vertigem do ciberespaço é a versão moderna dos labirintos do saber acumulado dos gregos e romanos
Se o esclarecimento é a saída do homem da sua menoridade, a internet permite hoje que muito mais pessoas consigam acessar a informações antes restritas e socialmente discriminadas. É claro que a lógica capitalista já se instalou na rede, e só os ingênuos imaginam que a informação está simplesmente democratizada. Mas é fato que as fontes de consulta cresceram exponencialmente, e isto ajuda a pesquisa e o desenvolvimento humano.
2. O HIPERTEXTO prolonga e se articula com o projeto enciclopedista
O maior mérito da rede mundial de computadores, a meu ver, está na “cotidianização” da busca de informações e do conhecimento. Acessível a quase 40% da população brasileira, e em crescente expansão, a internet difere do projeto enciclopedista por não ser elitista na sua confecção, mas é a única maneira de pessoas que não teriam acesso aos livros e bibliotecas conseguirem expandir seus limites e fazerem suas próprias pesquisas. Quem não viveu não sabe, mas a compra de uma enciclopédia era um fato importante, e pelo preço, restrito às classes sociais mais abastadas. O fato da rede reunir, se não todo o conhecimento humano, como pregavam os enciclopedistas, mas grande parte deste conhecimento, de certa forma encadeia o projeto da enciclopédia com a internet, nesta busca aos registros – e principalmente do acesso irrestrito – do que temos publicado, pensado e guardado da humanidade.
3. Memex, o conceito criado por Vannevar Bush, em 1945, propunha um dispositivo de recolher e selecionar material, baseado na indexação associativa, e não na ordem alfabética – é o hyperlink ?
Como disse antes, é impressionante como o passado adianta o futuro, em alguns momentos. Mesmo a mudança da forma de indexação algumas enciclopédias, que passaram a ser “temáticas”, fugindo da tradicional ordem alfabética, não imaginaria a imensa capacidade que um hiperlink traz para a dinâmica de leitura e pesquisa. Pelo menos este Bush tinha uma visão mais interessante da pesquisa do que seu triste xará do século 21. Os textos e trabalhos escritos hoje já fazem uso dos hyperlinks, com figuras e símbolos remetendo a outros textos ou à partes do mesmo texto. Mais um conceito que virou parte do cotidiano de alunos e funcionários.
4. As diferenças entre a enciclopédia e o hipertexto : Seletividade, Credibilidade, Método de filtragem, indexação e pesquisa
Prato cheio para os pessimistas de plantão, a credibilidade do que se apura na rede é sempre criticada, de tal maneira que a internet acaba sendo vista como mais um “ópio para o povo”, mais reguladora do que emancipadora. É claro que existe muita “bobajada” no ambiente WEB. Mas esta mesmas bobagens já existiam no formato impresso, e as pessoas pagavam por isso. O fato de aumentar a capacidade de selecionar, de possuir métodos de filtragem e pesquisa mais eficientes e acessíveis, confere a quem a usa uma arma poderosa na busca do conhecimento. O que precisa mudar é o interior de cada um, é a capacidade de distinguir e dar sentido ao que se encontra. E isso vale para quem vai a uma biblioteca ou para quem acessa a Wikipédia.
5. Os ganhos na passagem da enciclopédia para o hipertexto
Olhando os principais problemas apontados no projeto da enciclopédia (Atualização, Organização e Relevância), podemos entender os ganhos no modelo da rede mundial. A atualização deixou de ser um problema, pois o “grande arquivo da rede” muda em tempo real. A organização é polifórmica, ou seja, existem vários tipos de organização possível e ferramentas para usarmos estas maneiras diferentes de indexação e pesquisa. Por fim a questão da relevância é quase um assunto de foro íntimo. É o leitor, ou cibernauta, quem decide como apurar a sua percepção do que importa ou não. Pessoas que não sabem fazer esta separação de importância dos assuntos na internet são as mesmas que não saberiam fazê-la no mundo impresso.
6. Relação entre informação e sentido : O mito de que informação é sentido
É verdade que temos hoje uma perda do sentido das coisas, e que mais informação pode trazer a desinformação. Mas o mundo precisa andar para frente e não cabem aqui saudosismos pelo “bom tempo em que as pessoas liam livros inteiro e extraíam o máximo destas leituras”. O número de pessoas que vão continuar lendo os livros e se aprofundando será muito maior do que antes, como resultado não só da evolução econômica e cultural do mundo, mas também do crescimento demográfico e da própria existência de novos meios de se conhecer o que está sendo lançado em “produtos” culturais. Entre estes meios, a própria Internet. É fato que o excesso de luz pode cegar. Mas sem luz não há meio de se enxergar. É mais fácil colocar um óculos escuros para aprender a diferenciar as coisas amenizar as luzes fortes do que arrumar um sofisticadíssimo óculos infravermelho para enxergar no escuro. Mais informação, por si só, não garante nenhum desenvolvimento. Mas ao invés de maldizermos o excesso, é hora de nos preocuparmos em destacar o que é relevante, e de ensinar a quem não tem colírio a usar óculos escuros.
7. O que mata o sentido é o esquecimento e a não memorização ?
Fico pensando se no passado as pessoas realmente se lembravam de tudo que liam, como parecem nos dizer os que entendem que “o que mata o sentido é o esquecimento e a não memorização”. Talvez sim, já que a quantidade de informações era bem menor. Mas o esquecimento é um dom. As pessoas não precisam ser máquinas de memória não volátil. Com a quantidade de informações existentes no mundo, e que nos bombardeiam de todas as formas (rádio, TV, outdoors, jornais, revistas...) seriam humanamente impossível guardar tudo. Se o que guardamos é o que “devemos”guardar, é outro assunto. De novo, o que importa é como cada um está se relacionando com o conhecimento. O que mata o sentido, por exemplo, nos jornais impressos diariamente, é o fato dele trazer notícias de ontem, depois de já termos visto tudo pela televisão 24 horas antes. É o fato da grande imprensa estar se afastando dos leitores, quando criminaliza os movimentos sociais ou quando faz a cobertura de maneira partidarizada ou incompleta, gerando movimentos como o Centro de Mídia Independente.
8. Divertir e Agradar ou Instruir e Comover ?
Ambos. Espero estarmos no final da era em que os “sábios” decidem o que é melhor para cada um. A internet deve servir para agradar, para instruir, para divertir e até mesmo para comover. Sempre existirão os dois tipos de internautas, aquele que distingue (a minoria), daqueles que formam a massa que querem apenas saltitar entre uma veleidade e outra, inconsequentemente.
A internet é memória porque personifica o barateamento absurdo do armazenamento de informações. A internet é razão, porque sua criação, manutenção e desenvolvimento é fruto típico da capacidade racional humana. E a internet é imaginação, porque seu destino e fim é impossível de ser determinado neste momento em que estamos no limiar de uma nova revolução da humanidade, que encerra a revolução industrial e adentra na era da informação.
Não cabe a nós, nem a ninguém patrulhar o uso da internet. Não existe o risco de entregarmos a alma ao diabo pelo “consumo” da internet. Quem o faria, na verdade já o fez.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A internet e os novos valores da informação

Por Júlia Frate Bolliger (05000433)
Não é novidade que o crescimento e maior alcance da internet e das redes sociais transformou a forma de se transmitir conhecimento e informação. De fato, hoje a maioria das pesquisas é realizada em sites de busca que apresentam cada vez mais resultados. A velocidade e instantaneidade com que essas informações são obtidas são essenciais para quem escolhe esse tipo de busca. Esses fatores essenciais para o chamado conhecimento da era digital muito diferem do que era tido como valores para o saber dos tempos de conhecimento impresso.

Em O Projeto da Enciclopédia e Seus Registros Sobre o Jornalismo, o Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt, ressalta que a razão é a forma de conhecimento. Razão essa que ganhou força com o surgimento das enciclopédias, em oposição ao saber proveniente da revelação vinda dos ensinamentos da Igreja Católica. Nos tempos atuais, tempos da internet, do Google e da Wikipédia, a razão não mais é suficiente. A velocidade é essencial. Muitas vezes a velocidade é preferida à informação.

Olga Palombo em Enciclopédia e Hipertexto compara a internet a uma versão expandida das enciclopédias. A enciclopédia, símbolo da razão e com intuito de conter o máximo de conhecimentos possíveis, era a “rede” de saber pré-digital. Palombo levanta, então, a questão de se o hipertexto, forma mais comum na internet, seria o limite ideal da enciclopédia. Sendo um sistema integrado, com abertura que promete um saber que cresce infinitamente sem limites de extensão, os hipertextos seriam sim uma expansão positiva da enciclopédia. Somado aos fatores antes mencionados da velocidade e da instantaneidade, seria essa uma ferramenta extremamente poderosa do conhecimento atual.

Além das qualidades já mencionadas, a internet possibilita a democratização do conhecimento, a construção de um saber coletivo. Peguemos o exemplo da Wikipédia, enciclopédia online em que qualquer um pode alterar ou adicionar conteúdo. O leitor que porventura encontrar alguma informação equivocada pode corrigi-la. Lembro de certa vez que minha irmã procurou a palavra “Brasil” na Wikipédia francesa. Lá dizia que, em nosso país, falávamos três línguas: o português, o tupi-guarani e, nas regiões fronteiriças, o “portugnol”. Pois ela deletou essa “terceira” língua não correspondente à realidade. Essa democratização do conhecimento permite a participação ativa do pesquisador, tornando-o também produtor de informação e fazendo dessas infinitas enciclopédias onlines unidades inacabadas, sempre em transição. Analisando por esse lado, é perfeitamente cabível que as unidades de conhecimento sejam mutáveis, visto que o próprio conhecimento também não é algo sólido, mas sim algo que pode mudar, adaptar-se inovar-se.

Por outro lado, se pensarmos na informação equivocada que minha irmã encontrou, fica claro que, até o dia em que ela a alterou, milhares de pessoas provavelmente já a haviam lido. Sendo assim, essa liberdade de produção de conhecimento gera também a perda da credibilidade na informação online e a necessidade de um senso crítico apurado por parte daquele que usa esse meio de pesquisa.

Olga Palombo ressalta que essa condição ilimitada de informações interconectadas gera também “a desorientação, a sobrecarga, a banalização e a indiferenciação dos conteúdos vinculados”. As enciclopédias impressas selecionam seu conteúdo, o que não acontece na internet, gerando esse problema na credibilidade do material. Dessa forma, o material consultado só cumpre sua função de passar conhecimento à medida que quem pesquisa tenha senso crítico para determinar a veracidade da informação que está lendo. Caso contrário, pode acabar servindo para desinformar. Inclusive, Paulo Serra ressalta em Informação e Sentido, que o excesso de informação conduz ao decrécimo de conhecimento. A informação abundante da rede, muitas vezes, perde completamente seu sentido. Textos mal escritos, informações que se contradizem, tudo isso é extremamente recorrente.

Não escapa dessa discussão o jornalismo online, que cresce ferozmente a cada ano. Grandes jornais, inclusive, fazem campanhas para que seus leitores passem a assinar suas versões digitais e portais tomam o espaço de maiores noticiadores. Como o que rege a informação é a instantaneidade, muitas vezes ela é preferida à precisão do que é dito. Principalmente pelo fato de que o texto na internet é eternamente editável, diferente do impresso no papel. Assim, muitos jornalistas se eximem da responsabilidade de estarem escrevendo algo perpétuo e existe aí a tendência de surgirem “informações desinformantes”, passíveis sim de correção, mas que podem chegar aos olhos de milhares de leitores, assim como o portugnol da Wikipédia francesa.

Mais quantidade; menor qualidade: um novo fazer jornalístico

Foi na década de 90 que surgiu a Internet nos moldes que a conhecemos atualmente. Desde então, não foi apenas o nosso vocabulário que aumentou (afinal, as palavras TCP/IP, World Wide Web e hipertexto sequer existiam), mas também aprendemos um novo jeito de nos comunicar. Mais rápida, multimídia, global e complexa, a comunicação 2.0 e tecnológica define o homem do século XXI.

Conforme analisado neste semestre, a Internet e seu infinito banco de dados é a enciclopédia do século XXI. Com o nascimento da web, a vontade iluminista de registrar todo o conhecimento humano é potencializada. Como visto nos textos dos autores Olga Pombo, Paulo Serra e Antonio Hohlfeldt, o hipertexto representa o limite do sonho de intelectuais como D’Alembert e Diderot. Para eles, a Enciclopédia era uma maneira de mapear o mundo do conhecimento e de democratizar a informação.

Com o boom tecnológico das últimas décadas, hoje em dia tornou-se complicado para significante parte da população sobreviver sem todas as regalias e facilidades que todo esse avanço possibilitou. Vide o apagão que aconteceu nesta terça-feira (10) e deixou 18 Estados do Brasil sem energia elétrica. Sem eletricidade, muitos heavy users (outro verbete criado com o nascimento da internet) entraram em crise existencial - para não dizer de abstinência. Sem contar a inabilidade que órgãos como a polícia e a CET enfrentaram por ter grande parte de seu sistema de comunicação informatizado. Estamos todos conectados.

Além de toda polêmica política que o blacaute causou, esse episódio ainda marca a sensibilidade deste sistema, que em constante transformação, não depende apenas do saber humano e de sua capacidade física. Sem a internet e, por consequência, sem os gigantescos Google ou Wikipedia, como ficariam a comunicação e seus feitores? Um breve retrato do novo fazer jornalístico: o que seria de um jornalista sem usar alguma destas ferramentas por um dia? O banco de dados não é mais o cérebro, mas sim os links, hipertextos e Kb/s. Sem as consultas às páginas da web, a ignorância contemporânea ficaria evidente.

Irônico é comparar obras dos escritores do século XVIII com as dos autores atuais. Apesar de todos os gigas de memória e toda capacidade de hardware das máquinas criadas pelo homem, quais obras de pensadores contemporâneos podem ser comparadas aos textos escritos sobre a luz de velas e canetas de pena dos nossos antepassados? Mesmo com toda a facilidade e espaço que o homem pós-internet possui, a qualidade reflexiva enxugou-se. Essa recente rapidez da comunicação também cria a seguinte dúvida: para que tanta informação?

A problemática desta “memória absoluta”, como define Paulo Serra, é bem descrita por Jorge Luis Borges em seu conto “Funes, o Memorioso”. Dotado de grande capacidade de memorização e impossibilitado de esquecer, para o autor Serra, “Funes é, não pode deixar de ser, a metáfora borgiana de uma gigantesca máquina de captação e de registro de informações”. Entretanto, por causa deste dom, Funes é impossibilitado de organizar todas informações que armazenou durante sua vida.

Portanto, como já afirmava Platão, a informação só serve para quem já está informado. O internauta que navegar às cegas pela web vai pular de página em página e pouco vai lhe ser realmente útil. Ainda mais depois da potencialização dos conteúdos, que possibilitou que qualquer um seja um canal de informação. Neste novo cenário, apesar de toda clamada democratização, vale questionar sobre a qualidade e veracidade dos conteúdos produzidos.

Bombardeada diariamente com centenas de informações, a humanidade encontra dificuldade em distinguir o que é válido e o que é descartavel. No final do dia, poucos fatos realmente possuem algum valor e estes, ao invés de receberem maior atenção, são produzidos com a mesma agilidade que todos. Ou seja, a qualidade textual - ou hipertextual -, assim como a reflexão dos assuntos, tornou-se bastante defasada.

A revolução da enciclopédia do século XXI

Por João Villaverde

A internet constitui a grande revolução da comunicação e, principalmente, da democratização da informação. Esta afirmação, no entanto, é incompleta. Mas vamos por partes. O cerco fechado em imprensa, rádio e televisão, formam um jogo de poder importante, que permaneceu praticamente sem abalos por praticamente todo o século XX. A imprensa, herdeira do século XIX, passou a ocupar o centro da formação de pensamento da elite. Seu poder é tácito, legando para o rádio e, em maior escala, a televisão, a missão de exercer a hegemonia no campo das ideias.

Esse tabuleiro permaneceu intacto até os anos 80 do século passado.

A partir dali e, principalmente, da década de 1990, o surgimento da internet serviu para abrir o poder de chancela antes concentrado nas mãos dos donos das empresas jornalísticas. Com a criação e difusão dos blogs, entre 1996 e 1997, quebrou-se um baluearte do século XX. Agora, era possível divulgar, opinar e comunicar de uma maneira nunca antes esquematizada. Por meio dos blogs, como este O mundo de Prometeu, passou a ser possível -- a qualquer um com acesso à um computador com internet -- criar um blog e difundir informação e opinião. A caixa de comentários permite o diálogo com os leitores, que interagem diretamente com o produtor de conteúdo. O que antes precisava da chancela da mídia para ser publicado -- "é ou não é notícia?" e "como daremos esta informação?" -- passou a ganhar liberdade de difusão e discussão. Não à toa, os editores-chefe, antes figuras máximas no jogo de poder por serem aqueles em que os donos do capital confiam a direção jornalística, foram perdendo importância.

Essa revolução, no entanto, ainda depende, em boa parte, da constituição de renda mínima. Para poder participar do novo jogo, a pessoa (consumidor tornado internauta) precisa ter acesso à um computador e este, precisa ter internet. Muito foi feito nos últimos anos, mas ainda há enorme campo para democratização do acesso.

A internet, portanto, neste início de século XXI é a perenização do sonho iluminista de pensadores como Diderot e D'Alambert que viam a escrita como canal para o registro de toda a produção cultural humana. Assim, a opinião de todos -- a blogosfera e a internet, de um modo mais geral -- contribui para evolução do homen, preparando-o para novos conhecimentos. Iluminismo, mas, antes de mais nada, princípios básicos da filosofia grega clássica, quer dizer, o conhecimento se materializa através do choque de ideias e teorias, da comunicação entre homens pensantes.

O sonho de armazenar o conhecimento humano acumulado em um livro, o projeto da enciclopédia iluminista, assim como a mídia tradicional, encontram seu ponto de chegada. O conhecimento não é mais estanque, aquilo que está publicado e não se discute. Hoje, o produtor de conhecimento tem suas teorias e interpretações debatidas. Vitória do entusiasmo pensante em tempos pós-modernos. (Que no entanto, inibem o debate e incentivam o escapismo besta. Mas isso é outra história).

Assim, o que Olga Pombo visualiza em seu "Enciclopédia e Hipertexto" é justamente isso, quer dizer, a enciclopédia do século XXI não é mais um produto de elite -- sem sentido pejorativo ideológico, mas segundo entende Antônio Gramsci, quer dizer, aqueles com "acesso privilegiado à informação e cultura" -- que pode, eventualmente, alcançar diferentes classes. A nova enciclopédia, conforme caminhamos para maior democratização do acesso à internet, é plural. Fosse Zygmunt Bauman, diria se tratar da "enciclopédia líquida".

Em seus "Informação e Sentido" e "O projeto da enciclopédia e seus registros sobre o jornalismo", Paulo Serra e Antônio Hohlfeldt, respectivamente, recontam a constituição da enciclopédia -- aqui, não apenas como o "grande projeto iluminista" mas também como a figura de linguagem por excelência para "armazenamento cultural total" -- como uma solidificação da memória. Trata-se, para os autores, como um grande arquivo que deixa registrado a evolução e desenvolvimento ideológico dos homens. (É o que o rapaz de 13 anos entende por Google).

A grande sacada, ainda por ser encontrada -- sem pressa, diga-se -- está em encontrar uma base de sustentáculo para toda essa informação que se encontra dispersa. Está aí, afora qualquer profissionalismo que ainda se defende, a principal característica inerente ao que entendemos por mídia tradicional: a capacidade de organizar. Ter discernimento para dizer que algo é mais importante que outra coisa e não deixar disperso para convenções individuais. Essa capacidade do indíviduo decidir o que é melhor apra si, é claro, pode ser considerado um grande avanço sobre o passado recente, pré-anos 90, em que ele nada podia fazer, a não ser assistir bestializado à informação que lhe era transmitida ou simplesmente alienar-se. Certamente que é um avanço. Mas é preciso concatenar diferentes termos, propostas e opiniões.

De outra forma, ficaremos não muito diferentes de Funes, personagem de Jorge Luís Borges em "O memorioso". Sabemos muito, lembramos muito, temos acesso à muito. Mas não conseguimos transmitir esse conhecimento por falta de diálogo e, na ponta, de inteligência.