terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Enciclopédia Virtual

Alessandra Natasha Costa Ramos (06008625)

Vivemos em meio a um turbilhão de imagens e informações que nos são lançadas diariamente por meio da internet e outras mídias. A profusão desse material e a rapidez como isso tem se imposto no cotidiano das pessoas põe em xeque até que ponto documentos palpáveis (livros, jornais, revistas, etc.) sobreviverão.

A internet, muito além de ser uma propulsora das mais variadas formas de comunicação, é uma ferramenta com forte viés democrático no sentido de possibilitar o acesso do que antes era restrito a quem pudesse pagar.

Antes da web, para se ter acesso ao conteúdo de jornais ou revistas, era preciso ir à banca comprar o seu, ou fazer a assinatura. Depois da internet, podemos acessar as notícias com um simples clicar do mouse. Obviamente que há uma parte reservada a quem compra o jornal, afinal de contas, se fosse completamente liberado, provavelmente as publicações impressas seriam extintas.

Neste contexto de teia virtual, em que as contribuições de conteúdo vêm por todos os lados, o Hipertexto —técnicas de reenvio virtual entre todos os conceitos ou todos os endereços conservados nos servidores de todo o mundo— se estabelece criando uma relação com a idéia de enciclopédia —organização da totalidade do patrimônio cognitivo de uma época.

Porém, não basta apenas evidenciar essa relação entre Hipertexto e Enciclopédia. Segundo Olga Pombo, é necessário compreender em que medida o hipertexto prolonga, ou menos, se articula com o projeto enciclopedista.

Devido ao crescimento e especialização dos conhecimentos que se verifica desde o século passado, a morte da enciclopédia havia sido anunciada. Porém, com o advento do hipertexto criado no universo das novas máquinas informáticas e da sua ambição totalizadora, esse quadro pode mudar, adquirindo moldes mais dinâmicos.

Hoje em dia, a rede é parâmetro da existência para muita gente. Quem hoje em dia não possui e-mail? Este endereço eletrônico foi incorporado às fichas de inscrição, assim como o telefone e o endereço residencial estão há muito ali. Os blogs se proliferaram numa velocidade incrível e tomou formas inimagináveis da época de sua criação até agora. De mero diário eletrônico, os blogs tem se configurado cada vez mais em verdadeiras fontes de informações especializadas. Jornalistas migraram para lá. O Twitter virou um fenômeno nos últimos tempos. Para quem não deseja dissertar sobre grandes assuntos, os 140 caracteres máximos do Twitter vem bem a calhar. MySpace, Orkut, Facebook... E por aí vai.

Em meio a tantos sites de relacionamento social, de compartilhamento e publicação de conteúdo, nunca a totalidade cognitiva de nosso tempo ficou tão difícil de se compreender em um único lugar engessado como um livro.

Com o alcance cada vez maior das ferramentas de busca para mapear tudo o que existe na rede e dessa colaboração multilateral, pode-se dizer que o hipertexto tem feito as vezes do que convencionou pensar como enciclopédia, no sentido de que ela tem captado os conteúdo cognitivos de seu tempo a partir da publicação das próprias pessoas desse universo físico e virtual, e tem disponibilizado isso para quem quiser acessar.

Nesse novo contexto, assim como diz Olga Pombo, o que se ganha é uma nova ideia de unidade. Não uma unidade hermética, mas uma unidade sempre inacabada, variada, aberta, descentrada de si própria, combinatória. Unidade esta amadurecida, capaz de conviver, com todas as derivas, aceitar todas as diferenças, deixar-se prolongar por todos os labirintos, arriscar-se a destinos imprevisíveis.

Seria o hipertexto capaz de estabelecer uma nova idéia de enciclopédia, uma em que as informações se renovassem e se atualizassem continuamente por meio da colaboração de diversas pessoas em qualquer parte do globo.

Regulamentar para Racionalizar ou Transformando o excesso em abundância


Por Clara Caldeira

Diferente da conclusão a que chegam Postman e Baudrillard - acerca da insuperabilidade das contradições que envolvem o projeto de construção de uma memória artificial a partir da informação - defendo a busca por uma solução para essa equação nos moldes em que ela se configura hoje: a web.
É importante ressaltar em primeiro lugar que por mais que Paulo Serra utilize em seu texto Informação e Sentido a enciclopédia como metáfora para a hiper-memória das redes, ambas se distingue em inúmeros aspectos. O mais importante deles é que a enciclopédia enquanto modelo de catalogação de informação foi superada, ficou no passado, enquanto a internet ganha importância a cada dia e promete ocupar uma parcela cada vez maior na construção do futuro.
Ao invés de enveredar por um dos dois caminhos teóricos mais comuns quando o assunto é a sociedade da informação, proponho uma atitude mais realista. Deixando de lado a demonização e a exaltação exacerbada da atual abundância de informação, sugiro a análise do que temos de fato. Creio que não cabe mais a nós dizer se a web deve ou não existir e prevalecer enquanto principal veículo de acesso e organização de dados porque, na prática, ela já existe e já atua como tal. Devemos então tentar compreender em que circunstâncias essa atividade pode ser ou não produtiva e enriquecedora e como assegurar que o consumidor/leitor saiba fazer essa diferenciação.
Em tese, é muito interessante um contexto no qual todas as pessoas tem igual possibilidade de acesso à informação, de manifestação pública e de alcance de interlocutores. A princípio a idéia parece muito democrática. Mas é preciso considerar que vivemos uma realidade onde as pessoas tem capitais intelectuais e financeiros distintos, o que, no limite, possibilita a existência de dominadores e dominados no âmbito da informação.
Um exemplo citado por Sylvia Moretzsohn no livro Pensando Contra os Fatos para ilustrar como o ciberespaço acaba reproduzindo as relações de poder existentes na sociedade é o da eleição de Bush em 2004. Na época, os blogs republicanos se articularam rapidamente e conseguiram impedir a disseminação de um boato sobre o candidato. Desmentiram a acusação à tempo, e ainda divulgaram a hipótese de uma conspiração democrata.
O criador da Wikipédia por exemplo, transpôs a lógica neo liberal para as comunicações. Segundo sua linha de argumentação, assim como o mercado, a comunicação e o fluxo de informações se auto-regulam. Ele defende, no caso da Wikipédia, que o melhor modo de garantir informação verídica e de qualidade é o olhar atento dos leitores, que caso não se satisfaçam com um determinado conteúdo, agirão para modificá-lo. Um dos problemas desse pensamento é que ele importa a lógica do mundo real para o virtual de forma incompleta.
Segundo Bowman e Willis no livro We the Media “Os Weblogs deram a qualquer um com o devido talento e energia a condição de ser ouvido amplamente na Web.”. A questão é que não são apenas conteúdos fruto de talento e energia que estão disponíveis na Web podendo ser amplamente acessados. A “democracia virtual” é portanto uma faca de dois gumes, que nos conecta com todo tipo de informação: relevante ou inútil, confiável ou duvidosa, bem fundamentada ou precipitada.
Como alerta Sylvia Moretzsohn, ainda na referida publicação, um dos maiores problemas do meio virtual são as condições para se tornar referência dentro dele. Essa condição não vem, como deveria ser obvio, da credibilidade que os autores conquistaram como políticos, comentaristas, colunistas, etc. O terreno da web é propício à desqualificação das instituições e à diluição dos referenciais teóricos que diferenciam por exemplo a notícia e a opinião relevantes e bem fundamentadas, do besteirol.
Voltando à questão da abundância de informação (que fazendo uma outra opção semântica poderíamos chamar excesso), não vejo como uma atitude sábia tentar conter esse movimento que a internet possibilitou. Essa conjuntura constitui uma nova realidade já bem estruturada, uma tendência que dificilmente será contida e levará, cada vez mais, em direção à multiplicidade. O jornalismo de qualidade, por exemplo, pode surgir em qualquer “lugar”, mas nem todos os “lugares” produzem um bom jornalismo. É com esse paradigma que temos que lidar e é para ele que temos que pensar soluções.
No texto Enciclopédia e Hipertexto. O Projeto, Olga Pombo defende que no hipertexto (reenvio virtual entre todos os conceitos/endereços dos servidores de todo o mundo) não há qualquer limite de extensão. Para a autora isso tem como efeito a desorientação, a sobrecarga, a banalização e a indifererenciação dos conteúdos vinculados, o que arrasta consigo problemas de credibilidade, legitimação e erro.
De acordo com o texto Informação e Sentido de Paulo Serra a possibilidade de uma seleção de conteúdo “pressupõe que o cibernauta já possua, previamente à sua entrada no ciberespaço, informação (conhecimento) sobre a informação que lhe interessa procurar”. Essa constitui a questão central para uma possível solução da equação a que me referi no primeiro parágrafo. Para entender melhor como ela poderia ser resolvida no âmbito digital vamos tomar, não à toa, como exemplo a atividade jornalística no ciberespaço.
Por isso, a atividade dos blogs, assim como a atividade de qualquer endereço que venha a se instalar na web, pode e deve ser ter sua legitimidade reconhecida, contanto que devidamente categorizada de acordo com critérios a serem criados. E agora, chegamos a um ponto crucial. Um assunto polêmico, mas inevitável no presente contexto: regulamentação.
Seria necessária a estruturação de um órgão regulador competente, que contasse com uma comissão de internacional de especialistas para a análise dos conteúdos disponíveis no ciberespaço. Não por acaso esta comissão se assemelharia muito às equipes de especialistas a nível planetário responsáveis pela atualização constante da enciclopédia Universalis, mencionadas por Olga Pombo em seu texto.
Essa classificação seria executada por seres humanos (e não por sistemas de dados) por meio de uma espécie de selo que atestasse sua credibilidade, assegurando ou não a confiabilidade de determinado conteúdo. Assim, as pessoas teriam a liberdade para acessar o que quisessem, mas com a opção de seguir a orientação de especialistas (a comissão) quando quisessem procurara por algo realmente confiável. O objetivo dessa categorização seria racionalizar o universo do hipertexto descrito pela referida autora como acéfalo, transformando o excesso de dados em abundância de informação.

Rede ou teia de aranha?

Filippo Cecilio

Para aqueles que sempre defenderam a democratização das comunicações, a internet poderia representar a consolidação de todas as utopias. Um espaço ilimitado para produção e divulgação de conteúdo, com acesso garantido a qualquer pessoa que tenha condições tecnológicas para tanto. Contudo, a constituição da esfera pública perpassa diversas outras questões e interesses (econômicos, políticos, ideológicos) que não permitiram que a internet se consolidasse como esse espaço emancipador da informação.

O surgimento da rede que interliga os computadores de todo mundo serviu para botar por terra o poder antes concentrado nas mãos dos donos das empresas jornalísticas. Com o fim da esfera pública e a valorização cada vez mais aguda do individualismo, o homem contemporâneo perdeu a real noção de seu papel enquanto agente transformador de sua realidade. Essa solidão que sentimos mesmo no meio de uma multidão é reforçada diuturnamente pelo fascínio hipnótico e veloz exercido pelos meios de comunicação. Essa concepção estetizada da vida ganha força no imaginário coletivo criado dentro do que Guy Debord definiu como "Sociedade do espetáculo". Trata-se da já conhecida sociedade de consumo apoiada no alcance dos meios de comunicação. O espetáculo acaba por assumir a forma de ser da sociedade do consumo.

Trata-se da aparência que confere algum sentido a essa sociedade esfacelada. É o mais alto grau de evolução do fetichismo da mercadoria - que faz a ligação direta entre felicidade e capacidade de consumo. Debord diz que os meios de comunicação são a "manifestação superficial mais esmagadora" dessa sociedade do espetáculo, que torna os indivíduos infelizes e solitários no meio da massa de consumidores. A relação entre os homens e os avanços da tecnologia vem se modificando a uma velocidade infinitamente maior do que nossa capacidade de compreensão. Justamente por isso os meios de comunicação vêm sofrendo tanto para se adequar às novas demandas e encontrar seu lugar nessa convergência sem fios de mídias. O principal seria encontrar um sentido nisso tudo, mas a postura de se deixar levar pela maré que os veículos adotaram está distante disso.

Essa quantidade de informação recebida mais atrapalha do que de fato contribui para a formação de um senso crítico nos cidadãos. Não há tempo para reflexão, ponderação. Mal se acaba de digerir um fato, já vêm mais outros tantos, simultaneamente, para serem codificados e armazenados em nossos cérebros. Cria-se assim uma amnésia. Se o que interessa é a novidade - produzida em ritmo cada vez mais frenético - o receptor abandona qualquer crítica para sempre estar pronto para a próxima notícia. E essa falta de tempo para entender os fatos apresentados estimula a repetição de clichês, preconceitos e concepções já formadas.

Jeremy Rifkin, no livro “A era do acesso”, afirma que o capitalismo está se reinventando na forma de redes e começando a deixar os mercados para trás. "No processo, novas formas de poder institucional estão se desenvolvendo, e se tornando melhores e potencialmente mais perigosas que qualquer coisa que a sociedade tenha experimentado durante o longo reinado da era do mercado". A teoria dele afirma que o ato de alienação da propriedade - ou seja, a troca negociada entre vendedor e comprador -, cerne do que constitui um sistema de mercado, está se tornando menos freqüente nesse mundo virtual de nossos dias. Aproveitar o acesso de curto prazo é mais importante que comprar a ter posse de longo prazo. Transformar um relacionamento entre partes em commodity para acessar e partilhar propriedades tangíveis e intangíveis é a essência da abordagem baseada em rede à vida comercial. Esse avanço dos meios de comunicação e tecnológicos não é algo deslocado da realidade. O pensamento neoliberal vem à cena para consolidar a agenda conservadora, retraindo a ação do Estado em favor das grandes corporações e do fluxo livre de capitais, abalando os sindicatos, disseminando o desemprego, rebaixando a massa salarial e concentrando a renda. Não foi pequena a epidemia mundial das privatizações, das reengenharias, das flexibilizações e das megafusões entre grandes empresas.

Passa a prevalecer a auto-regulação do mercado, sem intervenção estatal, o que fortalece o livre jogo das forças do mercado e das finanças internacionais e enfraquece quaisquer mecanismos de proteção à economia nacional ou às garantias dos trabalhadores. Concomitante ao advento do neoliberalismo veio a Revolução Microeletrônica - extrema magnitude e aceleração - que reconfigura um universo de possibilidades e expectativas e leva à imprevisibilidade, presentificando o horizonte de perspectivas.

Os argumentos que vêm em favor desse rearranjo enfatizam o que é caracterizado como sendo seus aspectos positivos: a difusão de idéias e informações, a atualização e transferência das tecnologias, o rebaixamento dos custos das mercadorias e a ampliação das opções para os consumidores. O tecnicismo exacerbado aboliu a crítica. Porém, a crítica repensa, faz um juízo dos avanços e, sem ela, novos avanços não aconteceriam. Quando, nesse efeito loop, a crítica é minada, a identidade daquela comunidade se perde. O imediatismo e as inovações tecnológicas colocados numa velocidade atroz tornam a crítica cada vez mais escassa e menos profunda, restando aos indivíduos às perspectivas limitadas, à técnica e à liberdade de escolha de consumo.

Essa nova sociedade, ao mesmo tempo em que emancipa, aprisiona. A alteração no padrão de comportamento imposto pela mecanização muda os valores da sociedade, e como é tudo tão veloz e todos estão ocupados, praticamente ninguém conhece ninguém e a forma prática de identificar e conhecer os outros é a mais rápida e direta: pela maneira como se vestem, pelos objetos simbólicos que exibem, pelo modo e pelo tom com que falam, pelo seu jeito de se comportar.

Ao se analisar a atual crise econômica deflagrada pelo mercado imobiliário, percebe se o efeito looping - período em que a crítica, elemento essencial para o avanço, é deixada de lado e o que se nota são medidas tomadas em cima de erros (sem a menor reflexão), que por sua vez resultam em novos erros e medidas. Na fase de progresso econômico e tecnológico, até o rebente da crise, o sistema neoliberal era maravilhoso, auto-regulatório, passível de absorver as mais gritantes contradições.

Os bancos, depois de muito jogar com "dinheiro a receber" (hipotecas), percebem que os compradores a crédito não têm como pagar suas dívidas e vêm todo o capital especulativo se dissolver, se deparando apenas com os "papéis podres" (hipotecas impagáveis) e com retração de liquidez. O frenesi do mercado especulativo incitou a reflexão em torno da economia neoliberal, rompendo com o looping e dando margem a novas perspectivas táticas. Temos, portanto, as maiores e melhores razões para refletir criticamente sobre os descaminhos da técnica.

Aliado a isso, o obscurecimento das referências de tempo e espaço em conseqüência da globalização tende a minar as culturas regionais. Todos os produtos e mercadorias transitam pelo globo, de um lado a outro, chegando às mais diversas culturas. Poderia ser interessante, não fosse o fato de que a indústria cultural se limita a disseminar o pensamento imperialista ocidental, com seus valores e práticas que não permitem desvios de interpretação e conduta. Assim, com a disseminação hegemônica do "american way of life", sobra pouco espaço para as culturas regionais e suas particularidades.

O advento da tecnologia como nova teoria do conhecimento científico atende às necessidades do homem em controlar seu mundo, prever fatos e acabar de vez com seus medos. Esse mesmo mundo que antes mantinha uma relação de troca passa a ser o mundo ameaçador por ser desconhecido em seu todo, daí então, dá-se a necessidade de dominá-lo e o usá-lo em próprio favor. O uso da tecnologia para obtenção de recursos naturais, bens de consumo e lucro, tem seu preço. A função humana nas indústrias se reduziu, limitando-se a pouco (nada) mais do que produção, manutenção e programação das máquinas, resultando em desemprego (demissões em massa).

As ocupações restantes exigem muito dos funcionários, que têm de se especializar cada vez mais. A tecnologia é usada como estrutura de funcionamento, nos termos relacionados aos meios de produção. Nesses casos não há uma referência feita ao produto final, mas sim as estrutura e ao sistema pelo qual o produto passa antes de ser finalizado. Com essa lógica de eficácia, surge uma sociedade voltada apenas ao que é funcional e que órbita ao sistema de consumo, eliminando as utopias e ideologias por não desempenharem papéis no novo sistema funcional e consumista.

No caso dos países ditos de Terceiro Mundo, a justificativa dada pelos funcionalistas (profetas da tecnologia) para suas problemáticas, limita-se não apenas ao atraso tecnológico, mas dá-se por uma razão mais crítica: as culturas desses países de Terceiro Mundo caracterizam-se como não-funcionais. São povos que não possuem estruturas suficientes (pensamento funcionalista) para se adequar as novas tecnologias.

A transição de subdesenvolvimento para desenvolvimento significaria não somente a implantação da estrutura funcional da tecnologia através de um processo de industrialização, como também a destruição de uma cultura que nem pode resistir nem pode subsistir lado a lado com o estilo de vida funcional. Vemos, portanto, a estreita relação entre globalização, tecnologia, cultura hegemônica e a desumanização das relações entre os homens como conseqüência.

Cada vez mais as pessoas se isolam umas das outras seja por competitividade ou pelo medo - estimulado - da violência. A internet, portanto, neste início de século XXI, seria a consolidação do ideal iluminista de Diderot e D'Alambert, que imaginavam a escrita como instrumento para o registro de toda a produção cultural humana. A quimera iluminista de armazenar o conhecimento humano acumulado em um livro, assim como os meios de comunicação que prevaleceram até o surgimento da revolução tecnológica, encontra enfim seus limites.

O brilho eterno de uma mente sem lembranças

“hoje em dia, por toda a parte,
são as memórias artificiais que apagam a memória dos homens,
que apagam os homens da sua própria memória".
Jean Baudrillard


Por Helena Wolfenson

2010 se aproxima. Vivemos em um tempo em que a internet já se instaurou como artigo mais do que necessário. Fonte de informação, lazer, comunicação e facilitadora dos dias de hoje. A dimensão do tempo se transformou, e apesar deste ser um fenômeno relativamente recente, não conseguimos mais imaginar nossas vidas sem o advento dela e a sua conseqüente democratização. Com isso, instrumentos de informação e formação, como a outrora essencial enciclopédia tornaram-se obsoletos e a memória humana cada vez está mais associada aos seus suplementos de memórias virtuais.

A internet se configura como um espaço público para cada cidadão, no qual todos podem ser receptores e produtores de mensagens e informação. Ou seja, a internet é ao mesmo tempo onipresente e pessoal. É um espaço que diferente de outros meios de comunicação como a televisão e o rádio, nele se permite que a cidadania encontre novas formas para interagir, revitalizando a coletividade, proposta por Hannah Arendt. “A troca de juízos é condicionada à esfera pública, público é onde há coletividade, pluralidade e presença de diferentes opiniões”. Então, nesse sentido a internet é o mais público dos meios de comunicação jamais vistos.

Bom, se ela ser pública, democrática e essencial para os dias de hoje já está dito, há um ponto para se discutir: a validade e o poder de informar de fato de seu conteúdo e o quanto disso armazenamos em nossas mentes e o quanto depositamos em arquivos suplementares aos quais nunca mais acessamos.

Segundo o pensador francês Jean Baudrillard: “estamos em um universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido” em que a “inflação da informação” corresponde a “deflação do sentido”. O poder de armazenarmos informações e cultivarmos coisas em nossa memória acoplada no mundo virtual é infinitamente mais eficaz e maleável do que era durante o período Iluminista, quando foi inventada a Enciclopédia clássica. Criada por dois franceses, Diderot e D'Alembert, com a idéia central de “reunir os conhecimentos dispersos pela superfície da terra, expor o seu sistema geral aos homens com quem vivemos, e transmiti-lo aos homens que virão depois de nós”, criou-se um projeto no Ocidente, de destruir uma memória antiga para, em seu lugar, mediante a "informação" apropriada, construísse uma nova memória, sendo impossível, à memória humana, considerada quer individualmente quer coletivamente, reunir, expor e transmitir o todo o sistema dos conhecimentos.

No entanto, com o advento da internet e a proliferação de informação de todos os homens de todos os cantos, nasce a impossibilidade do projeto de construir memórias a partir do acúmulo de informações. Ainda parafraseando Baudrillard, a idéia de construir uma “memória artificial”, atribuída e corporizada nos media, sugere a garantia maior de que “o esquecimento será perfeito”. Ou seja, uma vez que se arquiva e até se compartilha todas as informações e imagens produzidas, a memória no ciberespaço se dissipa e se torna mais seguro seguir adiante sem aquilo em mente. Pois tem-se a segurança que a qualquer momento pode-se retomar aquele back-up de sua memória pessoal em um clique. Assim, temos a sensação de estarmos livre para esquecermos tudo o que dissemos antes, o que pensamos, escrevemos, produzimos, mas essencialmente tudo aquilo que lemos, vimos e absorvemos de informação e também de carregarmos conosco todas essas informações, sem termos que lembrarmos delas sempre.

No mundo virtual a memória arquiva apenas o que é instigado pelo racional, o que parte do verbal e se arquiva em palavras nos back-ups digitais, não conseguimos em nosso suplemento de memória arquivar lembranças de sensações e sentidos. Segundo Paulo Serra vivemos “o mito da in-formação do (como) sentido”.

A ideia iluminista da “informação” de todos os homens do mundo e de interferir com isso no futuro, sofria uma impossibilidade quanto a renovação dinâmica das produções de informação dos seres humanos. O atraso do que constava nas enciclopédias em relação a velocidade do mundo, com o advento da internet encontra a sua solução e mais, a possibilidade desta informação ser compartilhada e interferida por quem quer que seja e de onde estiver, em uma permanentemente atualização, ao eliminar, praticamente, o tempo de intervalo entre a produção e a recolha da informação. A enciclopédia online torna disponível não só a informação relativa às "ciências, artes e ofícios" como todos os tipos e formas de informação. Assim sendo, surge a questão se não realizará este importante meio de comunicação, de forma perfeita, essa ideia de reunir, expor e transmitir, a todos os homens, de todos os tempos, lugares e condições, toda informação? Sim e não. Pois, se este aspecto a internet solucionou como em um passe de mágica, eis que ressurge a questão do armazenamento, da absorção da informação e do que realmente cabe na memória humana, como já referido por Platão, “a informação (importante) só tem utilidade para quem está informado (e conhece); a quem não está informado (nem conhece), de nada serve procurar essa informação.”

A super-exposição e a liberdade de produção de informação universal e acima de tudo a capacidade de armazenar toda essa infinita quantidade de material informativo ou não, nos dá garantia de que nada será esquecido (pela máquina). O que faz criarmos um espaço livre em nossa memória e a enorme garantia de que nada - ou, pelo menos, nada de importante - será lembrado por nós. A internet apresenta, cada vez mais, o problema da hiper-memória, não atribuída naturalmente aos humanos e que necessita de uma enorme capacidade de selecionar e arquivar de forma hierárquica as informações que se tem acesso por ai.

Temos tanto na enciclopédia clássica, como na sua moderna reformulação a idéia de suplemento a memória humana, que na era do virtual foi difundida a todos os nossos mecanismos de armazenamento de informação e não somente ao Wikipédia. A agenda de telefones, o caderno de lembretes, o diário de viagem, estes sempre foram suplementos de memórias em que nós ativamente preenchíamos para depois termos a liberdade de esquecer daquelas informações que um dia poderiam ser úteis ou apenas recordadas e relidas com outros ares. No mundo virtual, substituímos a agenda, o caderno e o diário por informações digitais, que apesar de não serem escritas a mão, também necessitam da cabeça humana para serem preenchidas. Mas não são materiais palpáveis e isso faz com que sejam esquecidas mais facilmente, assim como a informação adquirida e produzida pela enciclopédia online colaborativa, que se por um lado, proporciona acesso há uma incontável quantidade de informação, e a questão aqui não é nem a de quem publica e escreve, pois neste caso, a sua variedade e até poder de confiança pode vir a ser maior do que o de apenas duas fontes criadoras da enciclopédia encadernada, por exemplo. Mas sim, o que do que lemos, escrevemos e entramos em contato conseguimos de fato armazenar e não apenas passar adiante em um movimento constante de produzir, arquivar, criar pastas e nunca mais recordar.

“Os Funes do jornalismo”

Por Rodrigo Borges Delfim - 06004509

“Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido”, analisa Neil Postman no texto “Informação e sentido”, escrito por Paulo Serra.

É bem conhecida a teoria de que o esclarecimento iluminista – do qual a Enciclopédia deve sua origem – levado ao extremo, deu origem ao nazismo – justamente o país de ícones da música clássica, da Filosofia e das Ciências em geral.

O excesso de luz pode levar à cegueira, ao caos, à falta de sentido nas coisas. Claro, tal cegueira deve ser entendida no sentido da incapacidade de processar, a partir do que se vê, a imensa gama de informações disponíveis e com as quais as pessoas são bombardeadas diariamente. Um resultado possível desse “apagão” no cérebro é o que acontece com o personagem de Jorge Luis Borges, Mauricio Funes, que é dotado de um excelente memória, mas que não consegue relacionar, organizar e filtrar os dados presentes em seu cotidiano e sua mente.

Muitas vezes os próprios responsáveis por dar algum sentido ao caos de informação na imprensa – os jornalistas – fracassam nessa tarefa, tornando-se verdadeiros “Funes” do jornalismo. Um exemplo bem claro disso são os textos presentes nos jornais impressos e na Internet feitos a partir de despachos das agências de noticias. Dados incompletos, contraditórios e até mesmo conflitantes uns com os outros podem ser encontrados no mesmo texto.

É certo que, em alguns casos, eles traduzem o contexto de incerteza e de tragédia decorrente de um fato (uma tragédia natural, um acidente de avião, um incêndio em um grande edifício). Aqui, tal confusão pode ser relevada, dada a dimensão ainda difícil de mensurar da tragédia a ser relatada.

Mas esse problema de misturar “alhos e bugalhos” ocorre não só em relatos de tragédias, ms também quando pede-se uma análise de um determinado fato – pode ser política, ideológica, econômica, história, não importa. Na ânsia de se fazer um texto plural e abrangente, o responsável por redigi-lo mistura métodos de análise de pensamentos distintos de forma desordenada, sem delimitar qual é o ponto de referência, qual a base desse texto que pretende ser uma análise de um determinado fato. O resultado são verdadeiros “Frankensteins” que, a exemplo do personagem de Borges, não são capazes de esclarecer e nem ao mesmo informar coisa alguma.

Esse problema é mais presente na mídia do que se imagina. Na Internet essa confusão é mais comum, dado o caráter imediatista que possui. Mas mesmo jornais e revistas – que deveriam dar uma ordem e sentido mais eficazes e com maior critério do que é feito na Internet ao caos de informações – também caem na mesma armadilha. Pior para o leitor do texto, que começa a lê-lo na tentativa de entender um determinado assunto e acaba o texto tão ou mais confuso do que antes.

A cegueira, a síndorme de Funes dos jornalistas tem cura? Sim, também não se pode levar essa questão às últimas consequências e da à mesma um caráter de “fim da história” ou beco sem saída. Ela é muito mais um sintoma de que certos critérios devem ser revistos para se adequar a esses novos tempos.

Apenas para citar um dentre tantos, o furo é um desses critérios a serem reformulados – especialmente em tempos de twitter, onde em 140 toques pode ser dada um informação bombástica, como a morte de Michael Jackson. O furo de verdade não é dar a noticia antes da concorrência, mas sim uma informação exclusiva, apurada e obtida graças à competência da equipe daquele veículo. Sim, dar tal notícia antes da concorrência é melhor ainda, mas corre-se menos risco de o pretenso furo virar uma “barriga” daquelas que será lembrada com um fardo para a história daquele veículo de mídia por um bom tempo – em outras palavras, impede-se um vexame.

O jornalista tem uma responsabilidade cada vez maior em organizar tais informações, e precisa fazer jus a ela, apesar de toda cobrança por tempo e dar a informação antes do concorrente. Ou seja, ele próprio, mais do que qualquer outro profissional, precisa se policiar quanto aos critérios de análise e fontes de informação usadas no texto.

Tudo isso para não cair nas armadilhas e tentações de confundir alhos com bugalhos e inserir informações inúteis nos frutos de seu trabalho – os textos e análises jornalísticas. Assim, será possível ao menos minimizar o problema exposto por Postman e dar cada vez mais sentido às informações.

“Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair’’

Luciana Barbosa (05000495)

Borges consegue criar em seus contos ótimas analogias. “Funes, o memorioso”, mesmo que passado no final do século 19, pode ser perfeitamente usado para explicar a complexidade da vida nos dias de hoje.

Tempos intricados, onde, sufocados pelo excesso de informação, estamos sempre a esquecer o que vimos, ouvimos ou pensamos minutos atrás. Ireneo Funes, por outro lado, lembrava de tudo; tinha uma capacidade ilimitada de memória. Mas era incapaz de ter ideias geniais, ou compreender qualquer pensamento. Ele apenas guardava, não havia raciocínio por trás das lembranças.

Funes pode ser comparado à Internet: uma infindável memória, onde se coloca de tudo. Não se filtra nada; não há seleção da qualidade da informação e nem se discrimina sua origem. "Minha memória, senhor, é como um despejadouro de lixos".

Tal qual a memória de um computador, onde quase tudo se encontra indefinidamente registrado. E quando é preciso, corremos para nosso arquivo e procuramos, entre as tantas pastas, aquela informação que resolvemos guardar não em nossa própria memória, mas em nossa memória – ou HD - externa.

Segundo Funes, deveria haver um sistema capaz de dar um signo único para cada coisa, cada expressão, observada em cada momento preciso. Seus fatos eram limitados a uma memorização sem um real raciocínio, apenas o total e completo registro de tudo que acontecera ausente de distinções ou afastamentos.

Dizia, ainda, que antes do acidente "havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo", tal qual Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, com sua simplicidade em o “Guardador de Rebanhos”.

O excesso de informação do mundo atual nos confunde. TV, rádio, jornais, Internet e o ritmo frenético da vida urbana se combinam numa tensa mistura que torna tudo fragmentado demais. A incessante mudança de contextos torna a realidade das informações e imagens praticamente impossível de assimilar tudo.

Entretanto, a Internet, sem dúvidas, é a que mais colabora para a nossa perda de memória. A Internet e suas incontáveis páginas de informação concentram-se nos anos recentes. É como se de imediato o tempo tivesse sido aniquilado, deixando-nos numa espécie de presente estendido. Tudo é para hoje, tudo é agora, é o Último Segundo.

Funes simplesmente não sabia o que fazer com tanta informação. Nem nós.

Ode à Nostalgia?

Nathalia Sica (06007325)

Nostalgia descreve uma sensação de saudades de um tempo vivido, frequentemente idealizado e irreal. Nostalgia é um sentimento que surge a partir da sensação de não poder mais reviver certos momentos da vida. O interessante sobre a nostalgia é que ela aumenta ao entrar em contato com sua causa e não diminui como o sentimento da saudade.

Wikipedia, 29.11.2009

Em um mundo onde quem fica sem luz não fica sem twitter, a metáfora de Jorge Luis Borges em Funes, o Memorioso cabe como uma luva. Seu ponto de vista é passado através de Irineu Funes, personagem que tem a capacidade de memorizar todos os fatos e armazenar todas as informações, mas sem refletir, hierarquizar a importância, ou simplesmente abstrair o desnecessário.

Nesse contexto é possível voltar aos tempos da enciclopédia, da máquina de escrever e do telegrama. Tempos onde a informação era, não pouca, mas mais sucinta, a velocidade entre produzi-la e repassá-la era de horas e não segundos, e as pessoas tinham tempo de “absorver” o conteúdo pretendido. O projeto da Enciclopédia, desenvolvido e idealizado por D'Alembert e Diderot adota o método “dicionário”, tem o objetivo de arquivar o conhecimento humano, eternizar memória e registrar a evolução e o desenvolvimento ideológicos do homem.

Obviamente que com a evolução da tecnologia e surgimento da internet, o estilo “enciclopédia” de informação caiu por terra, o que levou pensadores como Luis Borges e Paulo Serra a levantar certas questões. Paulo Serra afirma em “Informação e Sentido” que o excesso de informação pode funcionar de forma contrária ao seu objetivo. Para ele, o usuário da internet não consegue filtrar o que é relevante ou não, e deixa para os leitores a máxima: “Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido”.

A discussão do excesso de informação é na verdade uma crítica feroz à sua qualidade. Quem é que tem competência para repassar informações aos outros? É muito fácil sentir-se nostálgico à época aonde a informação vinha condensada em livros de capa dura, e não havia opinião, discussão e dúvida. Assim como a “desinformação” de todos os dias da internet tem seus seguidores fiéis, a informação de qualidade também não perdeu os seus. A mudança está na forma. A enciclopédia engloba a informação em sua forma mais lapidada, e a internet na mais bruta. É um novo modo de encarar o mundo, e a verdade é que a última “geração da enciclopédia” ainda não se acostumou.

Para quem sabe procurar, a informação de qualidade ainda está aqui. A diferença é que há mais opiniões, discussões e pontos de vista, e quem não se interessa, não é obrigado a ler, certo? Os bons autores continuam escrevendo livros, os grandes jornais continuam a publicar suas notícias, e querendo ou não, a evolução da informação não foi acompanhada pela evolução de quem procura, e talvez esteja aí o grande problema. Não se pode negar a revolução que a internet trouxe para o mundo, mesmo com seus poréns. Se o problema é a quantidade e a qualidade, a solução é saber selecionar. Em vez de contestar o excesso, é preciso educar. Negar o direito à internet é negar à sociedade o maior trunfo da democracia e liberdade de expressão já criado.