sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A internet e o excesso de luz

Como catalogar algo imaterial e constantemente mutável? Se esse era o desafio principal dos iluministas quando surgiram as primeiras iniciativas reunir o conhecimento humano nas chamadas enciclopédias, hoje com a consolidação da internet esse obstáculo parece ter sido eliminado. Isso porque se o que faltava antes eram os recursos para a constante renovação e acúmulo de informações de maneira física, através do papel, o armazenamento virtual hoje dispõe de um espaço infinito e facilmente alterável, assim como o acesso instantâneo a esse "acervo" de qualquer parte do mundo. Esse "limite ideal da enciclopédia" apontado por Olga Pombo em "Enciclopédia e Hipertexto, o Projeto", é a solução com que qualquer iluminista sonharia, mas ainda assim leva a novos obstáculos para sua realização plena.

A começar por sua própria democratização, o que a princípio seria um ponto positivo mas que também traz seus poréns. Da mesma forma que a internet oferece o livre acesso a (quase) qualquer informação, ela também permite que qualquer pessoa públique conteúdos nessa rede virtual e, da mesma maneira, que os altere. Essa pluralidade de fontes aumenta as possibilidades, mas também confunde. Vale dizer que o problema em relação à veracidade daquilo que se lê é anterior à internet, assim como o controle da informação que, assim como a concentração de riqueza, é anterior até mesmo ao capitalismo. A diferença é que se antes tal poder ficava restrito apenas a determinados grupos, e hoje a inserção de informações é possível para qualquer pessoa. Então o problema não é exatamente a distorção dessa memória, mas o excesso de informações que contribuem com ela. Como bem aponta Jean Braudillard, "estamos em um universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido". E assim como a clássica alegoria da caverna de Platão, parecemos viver hoje um momento pós-iluminista, uma transição de homens aprisionados na escuridão para seres livres a caminhar na luz, mas ainda com olhos desabituados a ela. Ou seja, a cegueira pelo excesso de luz, que Braudrillard traduz na "inflação da informação" e "deflação do sentido".

Dessa forma, Olga Pombo tem razão ao apontar a internet como o meio ideal para a concretização desse ideal iluminista, pois o hipertexto é de fato a ferramenta ideal para o arquivamento de informações, por seu espaço de armazenamento ilimitado e possibilidade de alteração constante. Porém, falta a seus usuários ainda a habilidade para lidar com tal. Com tamanho número de informações chegando aos seus computadores e se atualizando e frações de segundo, o homem de hoje precisa desenvolver sua capacidade para absorver e filtrar um volume de conhecimento praticamente impossível. Da mesma forma, ao mesmo tempo que a oferta de informações cresce, o tempo e a capacidade para apreende-las parece se reduzir constantemente. Assim, dezenas de novos conteúdos passam diariamente pelos olhos de um internauta, mas até que ponto isso é absorvido? E, também de forma negativa, esse excesso de velocidade faz com que as informações sejam reduzidas para otimizar o tempo, tornando os conteúdos pouco aprofundados e fazendo com que muito do que entra nessa rede virtual se perca entre páginas de internet na história.

Em contraponto, a possibilidade de contribuir com esse espaço fez com que crescesse muito, nos últimos anos, o hábito de se escrever. Desde a popularização dos blogs e redes sociais como orkut, facebook e etc, até a crescente contribuição de leitores em seus jornais e portais de notícia, que hoje disponibilizam espaços para comentários e contribuições com fotos e depoimentos sobre o que é publicado. Ainda assim, tais informações acabam carecendo de aprofundamento e reflexão, e ao final o que restam são opiniões repetidas e pouco aprofundadas sobre temas facilmente esquecidos. Será isso o que restará às próximas gerações como memória de nossa sociedade atual? O próprio twitter, microblog que restringe as publicações a 140 caracteres traduz muito bem essa tendência com sua popularização. Assim como o que se lê, o que se escreve não ultrapassa as três linhas de pensamento, e assim nossos livros de 700 páginas e anos de pesquisa dão lugar a opiniões instantâneas e levianas.

Outra preocupação é a constante atualização desses próprios mecanismos de armazenamento virtual. Por mais que a superação do palpável, do material, pareça ser necessária, a mudança desses meios e seu controle por terceiros elimina a garantia de uma conservação dessa memória. Afinal, por mais que todos possam contribuir com ela, quem a armazena e controla? Com o aumento do espaço de armazenamento virtual, a tendência é que cada vez menos o usuário conserve alguma informação em seu computador pessoal. Hoje já é possível ouvir música e assistir a vídeos e filmes em streaming, sem a necessidade de se possuir os arquivos em um hd próprio, assim como existem diversas ferramentas online de criação e armazenamento de textos, fotos e qualquer tipo de material. E como se garante a conservação e inalteração disso? E, do mesmo modo, para que fins tais informações serão utilizadas?

Por fim, mesmo que materializada em livros, a informação permanecerá sempre impalpável, e sua conversação plena ainda é um ideal distante. Seja em back-ups virtuais ou antigas escrituras, ela sempre estará sujeita a fatores externos, que variam de posse e uso até sua interpretação. Dessa forma, acredito que o maior desafio a ser superado para uma boa preservação de nossa memória atual é deseolver a habilidade para interpretá-la hoje. Treinar os olhos para lidar com esse "excesso de luz" e, por que não, selecionar parcelas, deixar de lado o excesso superficial alertado por Braudrillard, buscando aprofundar sentidos naquilo que se recebe mas não necessariamente absorve.

A Deflação do Sentido

Essa é apenas parte de um texto completo sobre a crise do jornalismo e a deflação do sentido. O texto na integra você baixa aqui

A Deflação do Sentido

“A crise é uma crise na consciência. Uma crise que não pode mais aceitar velhas normas, os velhos padrões, as antigas tradições. E, considerando que o mundo hoje, com toda miséria, conflito, brutalidade destrutiva, e por ai vai, o homem continua o mesmo de antes.” (Raymond Franz)

POR EDSON CASTRO

N

ão partilho cegamente a visão dos teóricos da "sociedade da informação" em que o conhecimento tem um caráter auto-formador e emancipatório e que tendem a pensar que mais informação levam, necessariamente, a um acréscimo de conhecimento. Mas mesmo assim, nego o valor de alguns seus estudos e afirmações.

Postman em sua teoria sobre a deflação do sentido critica a "explosão da informação", iniciada com a imprensa e com o seu auge com o computador, gerando um mundo onde não á uma orientação existencial definida, perdida no meio de valores, normas e verdades infinitas. Já Baudrillard, acredita que o problema está na relação entre o receptor e a informação, fazendo assim com que fujamos do sentido real da mesma e assim, não compreendermos o sentido que ela traz.

Todo esse processo criticado é simplesmente um dos efeitos da modernidade na humanidade, que, ao contrário de certos estudiosos, tende a evoluir e andar para frente. Nunca ouve um bom tempo onde as pessoas liam somente livros e dela extraiam o máximo de informação. Isso é puro e simples saudosismo irracional. Hoje basicamente qualquer um pode acessar um site com uma informação que antes estava limitava a um livro que acumulava poeira nas mãos de estudiosos que tinham acesso à obra. Parte do acervo de livros da USP, que deveria ser de livre acesso ao público, esta fechada somente aos professores e mestres da universidade.

Paulo Serra relembra em seu texto Informação e Sentido o sentido original de outro formato ameaçado de extinção tal como conhecemos, a enciclopédia:

“Ora, um dos objectivos centrais da Encyclopédie é, justamente, eliminar resolutamente a infinidade de pontos de vistas, reduzindo o conhecimento a limites comportáveis por cada ser humano - o que envolve, obviamente, a adopção relativamente arbitrária de um ponto de vista) e o apagamento da infinidade de todos os outros que também seria possível adoptar.”

Considero esse trecho simplesmente de um caráter retrogrado impressionante. Autores que realmente acreditam nesse valor, deveriam estar fadados a amargurar o esquecimento na história da humanidade. Ao meu ver, ele defende a história sendo escrita apenas por uma ponto de vista só, como foi feita até o século passado. Um mesmo ponto de vista que decidiu que a história do massacre nas ruas de Ruanda não deveria ser contada, ou que a batalha de Stanligrado não tinha tanta importância para a 2ª Guerra Mundial, e tantos outros fatos históricos apagados e diminuídos graças à concepção estúpida de que é necessário limitar o ponto de vista do ser humano e adotar arbitrariamente uma que seja melhor para todos. Para todos quem Paulo?. Se antes o mundo mal ouviu falar sobre o genocído que acontecia nas ruas de Ruanda, esse ano vimos a população do Irã falar ao vivo com o mundo via Twitter. Temos dados na Wikipédia, explicações, fotos e tudo mais que procurarmos lapidar na rede.

Com o uso da Wikipedia, criamos uma enciclopédia coletiva, livre de redatores e interesses privados. Os negativistas questionam: mas quem escreve essa enciclopédia? Ora, nós escrevemos. Aqueles que se interessam e vão atrás. Realmente, quantas pessoas você conhece que já fizeram isso? Essa iniciativa é única e a grande chance da história ser construída por aqueles que a vivem. O monopólio da informação ainda existe sim, mas ele não é tão gigante como era antes. Continua sim, grande e influente, mas pelo menos hoje, temos saída, temos pesquisa. O que a Globo diz sobre um assunto não é mais verdade garantida se você tiver o interesse de pesquisar e ir atrás. Não vivemos mais em uma realidade extraída das paginas de “O nome da Rosa” ou nas mãos criminosas da emissora que foi “Muito além do Cidadão Kane”. Se tudo isso for contra o principio da enciclopéd, que por favor esse principio se exploda. A Wikipedia agrada muito mais e, por mais que as pessoas não queriam aceitar, para quem se dedica, é fácil se informar muito mais.

Por que não nos atermos somente ao que Paulo Serra diz sobre a seletividade: “só funciona na medida em que o leitor é detentor de competências críticas de discriminação do que é importante”, ao invés de uma dedicação imensa ao negativismo desse sistema. E para adicionar, cito o que o colega de classe Victor Esteves brilhantemente escreveu sobre o tema:

“É fato que o excesso de luz pode cegar. Mas sem luz não há meio de se enxergar. É mais fácil colocar um óculos escuros para aprender a diferenciar as coisas amenizar as luzes fortes do que arrumar um sofisticadíssimo óculos infravermelho para enxergar no escuro. Mais informação, por si só, não garante nenhum desenvolvimento. Mas ao invés de maldizermos o excesso, é hora de nos preocuparmos em destacar o que é relevante, e de ensinar a quem não tem colírio a usar óculos escuros.”

Que abundância, meu irmão!

por Paula Cabral Gomes

Vivemos num período de abundância. Tudo que chega aos nossos olhos vem em quantidades impossíveis de serem digeridas dentro de um intervalo de tempo razoável e torna-se irrealizável o arquivamento para se verificar mais tarde.

Como Paulo Serra citou em Informação e Sentido, a fórmula de Baudrillard explica bem o que sofremos no século XXI: “estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido”.

Isso ocorre com a informação e aquela possível sensação inicial trazida pela internet, de que se teria mais conhecimento devido a maior quantidade de informações disponíveis, vem caindo por terra, pois, por experiência própria, afirmo que ainda não sei como selecionar os sites que devem ser checados primeiro e muito menos decifro rapidamente os mais confiáveis.

No que acreditar num mundo virtual que permite a expressão livre de “todos” (claro que esse todos tem limites)? A quais critérios recorrer para se fazer uma escolha que faça sentido?

Muito do que se encontra foi requentado do requentado do requentado de um site x e, como dizia minha avó, “quem conta um conto aumenta um ponto”, e o que chega até nós pode estar completamente distorcido. Logo deixo claro que não entrarei no mérito de discutir quem tem a verdade, até porque cada um tem seu modo de decifrar os códigos do mundo.

Também há o risco de perda de identidade, porque passamos a não saber mais “quem está falando” e perde-se todo e qualquer estilo de escrita. (De acordo com um amigo meu e o que ele discutiu em uma aula pesquisas atuais revelam que os meios digitais criam um novo estilo de escrita, com suas próprias regras bem definidas; ou seja, é uma aparente baderna que, na verdade, é organizada.) Além disso, já se criou uma dependência sem volta com relação aos computadores e ferramentas oferecidas. Quem, hoje em dia, vai pesquisar na Larousse ou na Barsa antes de utilizar o Google, também conhecido com Deus e “aquele que tudo sabe”.

Já que o Google sabe de tudo, deixamos para lá o poder de nossa memória e confiamos a ele essa função: recordar para viver, o que não é muito confiável, diga-se de passagem, até porque quantidade e a variedade são inumanas.

A perda de memória, para alguns (principalmente políticos nada confiáveis), é sinal de liberdade, pois assim se torna viável experimentar de tudo, já que não se sabe os resultados devido a um esquecimento do passado. Dessa forma, qualquer tentativa de eliminação da memória ou a limitação desta pode ser vista como criminosa. Mas isso quando se tem noção desse fato, pois, nos dias de hoje, é totalmente possível reconhecer esse “fenômeno”, porém não aqueles que o notam.

Os objetivos de se limitar a história podem ser decifrados nessas palavras de Diderot: “Com efeito, a finalidade de uma Enciclopédia é reunir os conhecimentos dispersos pela superfície da terra, expor o seu sistema geral aos homens com quem vivemos, e transmiti-lo aos homens que virão depois de nós; a fim de que os trabalhos dos séculos passados não tenham sido trabalhos inúteis para os séculos que se sucederão; que os nossos decendentes, tornando-se mais instruídos, se tornem ao mesmo tempo mais virtuosos e mais felizes, e que nós não morramos sem termos desmerecido do gênero humano.”

Assim, da mesma forma que acho péssima a idéia de se limitar aquilo que deve ser passado a diante, também me incomodo com a oferta de muitas opções, pois ambos, um pela seleção e outro pela abundância, impõem limites. Não vejo nos limites um problema quando se sabe que eles existem.

Sei que a discussão parece estranha, não há uma verdade absoluta, mas qual seria a graça se tivéssemos todas as respostas, se tudo fosse simplesmente uma escolha entre verdadeiro ou falso?

De acordo com a previsão de Diderot, no futuro, os homens se dividirão em duas classes: de um lado, os que lendo pouco e fazendo as suas descobertas, irão acrescentando novos volumes já existentes; e, do outro lado, a classe dos homens que, não descobrindo (e não se preocupando em descobrir) nada, “se ocuparão a folhear dia e noite esses volumes, e a separar aí o que eles julgarão digno de ser recolhido e conservado”.

É difícil saber o que está certo ou errado, pois cada caso necessita de uma solução diferente que pode estar na limitação ou na abundância. Um ou outro pode facilitar uma pesquisa, uma busca, uma resposta, por isso fica difícil para mim, concordar ou discordar de uma opinião, já que acredito que a generalização, em qualquer aspecto empobrece aquilo que se defende.

Não posso dizer, por exemplo, que o jornal é melhor que uma enciclopédia e vice-versa, pois cada um tem a sua função certa em determinados casos.

No texto de Paulo Serra, ele chama atenção para os tipos de informação que podemos encontrar. Há aquela que se dirige à curiosidade, que existe apenas para saciar o olhar inquieto, que sempre busca por novidades, mas que não se preocupa em absorver aquilo que é visto. Posso citar o Twitter, ótima forma de passar o tempo escrevendo, lendo e repassando “informações” que podem ser fundamentais como simples distração. Outro tipo é a informação que serve para divertir e agradar, que utiliza o recurso do choque e que dura exatamente o tempo do programa e acaba. Que tal usar como exemplo o Brasil Urgente, programa de Datena, apresentador sensacionalista, que por mais crítico que seja, torna-se apelativo muitas vezes.

Resumindo (o que não é tão legal assim): Muito do que encontramos e do que é produzido é instantâneo, no mesmo momento em que vemos, já acabou. São coisas consumidas na hora e que não surtem efeito. Aquilo que incomoda, não interessa, e o reflexo é mudar de canal ou parar de ler. Essa não é a fórmula certa para se prender um telespectador, um internauta. Todos sabem disso e é exatamente por esse motivo que as fórmulas da televisão e da internet não mudarão tão cedo, por mais opções que possamos encontrar. Afinal, porque mudarmos aquilo que está dando certo?

OBS: Não concordo com muitas coisas que escrevi, tento criar alternativas, como “boa” zineira, porém reconheço as dificuldades e a existência de fórmulas praticamente imutáveis.

O conhecimento coletivo

Por Alexandre Santos de Morais Matrícula 06008626

Catalogar a memória é algo que sempre foi feito através dos anos por meio das enciclopédias, que reúnem e organizam o conhecimento. Atualmente os buscadores virtuais, diferente das tradicionais enciclopédias, parecem se alimentar ininterruptamente das bases de informação e devolver tudo isso da maneira que o internauta solicitar.
Sem dúvida, a internet desempenha um importante papel da democratização da informação e a ela são atribuídos novos sistemas de comunicação, que se desenvolvem independentemente da pauta social, ou seja, do jornalismo das empresas de comunicação. O Google, em especial, faz um trabalho de referenciar a informação tal como uma enciclopédia e parece agregar tudo o que, em volume, a memória humana sequer sonha suportar. Retirar o conhecimento do indivíduo e situá-lo fora dele. Seria possível tal feito? Não precisaremos mais usar a memória, pois ela estará catalogada na internet pronta para ser usada de acordo com a demanda?
Em Portugal, por exemplo, o site de buscas mais requisitado é o sapo.pt e não o Google, e isso se dá pelo fato de que as referências em língua portuguesa nos sites de pesquisa são geralmente brasileiras. O sapo.pt é um buscador mais voltado para o conteúdo de Portugal. Assim, podemos concluir que até a disponibilidade dos assuntos na internet, pelo Google ao menos, pressupõe uma organização política da informação.
O grande problema está na concentração de conhecimento em um só ponto, e no efeito colateral desta imensa difusão de informações que é justamente o seu excesso, que não emancipa o indivíduo, mas o desorienta. Em especial, a postura adotada diante da internet a desconsidera como uma ferramenta e lhe dá um caráter superior de detentora dos conhecimentos. Os jornais, que antes eram o meio predominante de informação, hoje estão em crise por não darem meios alternativos de resposta ou interação com o conteúdo.
A questão que envolve a internet e jornalismo se dá pela razão de que os meios digitais ultrapassam o controle do conteúdo antes exercido pela mídia. O que se dava em um movimento vertical, hoje se desenvolve horizontalmente. Assim, quem antes era consumidor, passa a ser produtor de conteúdo. E nesse aspecto o Hipertexto se encaixa como uma espécie de construção do saber que se mostra em aberto, pois mais pessoas podem adicionar os dados que julgarem necessários a aquele tipo de informação.
Neste sentido, como enciclopédia, a internet pode cumprir muito bem a missão de receber os saberes de diversas fontes e condensá-los, porém, não pode substituir a capacidade humana de contextualizar os saberes, que são dados a partir de uma assimilação. E é assim que surgem as dificuldades em lidar com o bombardeamento, uma vez que a velocidade das informações independem do ritmo de internalização da notícia.
Portanto, é necessário perceber que o acesso aos fatos por meio da informação, independente da forma com a qual ela se dá, é produto de uma segunda visão deste fato, passível à visão de quem a produziu. Logo, o princípio para se entender a criação de uma memória coletiva, como uma enciclopédia, e entender o Hipertexto, é conferir a estes o caráter de serem obras da individualidade.

Não precisamos mais lembrar... Temos o Google!

Por Elisangela F. Silva


“Algumas coisas o homem não deve saber. Para todas as outras existe o Google”. Isto resume, de forma amadora e precária, a intenção do hipertexto e links de substituir os projetos dos enciclopedistas - de organizar, hierarquizar, relacionar e transmitir o conhecimento. A idéia em si não é ruim, apenas impossível. Sempre me pergunto, “que cargas d’águas, eles pensavam quando idealizaram o projeto de etiquetar o conhecimento?”. Teriam que ter mais vida que um gato, viver mais que Matusalém, afinal de contas, eles próprios se angustiaram em perceber que o projeto é tão complexo e infinito, quanto o universo e o conhecimento.

Que fique claro que trabalhos de catalogação foram, e continua sendo, importante para novas descobertas e manutenção do que já foi realizado. Os registros da informação por parte dos enciclopedistas não foram em vão (Que atire a primeira pedra quem nunca usou uma enciclopédia para descobrir algo ou verificar que se uma coisa tem relação com outra!).

Ao longo da história diversas linhas editoriais, políticas, econômicas e sociais foram criadas para explicar e registrar o conhecimento. Em todos os projetos a intenção era a mesma: realizar o sonho moderno de conservar e transmitir o máximo de memória possível, porém, os enciclopedistas confundiam conhecimento com informação. Nos exemplares (e mais tarde na internet) havia registro da informação, por meio dela é possível se chegar ao conhecimento, contudo o acréscimo de informação não acarreta necessariamente um acréscimo de conhecimento.

O acumulo de informação sem reflexão conduz à redução do conhecimento, uma vez que o não entrelaçamento entre as memórias adquiridas transforma os indivíduos em verdadeiros Funes – personagem de Jorge Luís Borges caracterizado por registrar e recordar tudo, porém não consegue distinguir o memorável e o desprezível.

Os meios de comunicação trazem consigo a intenção elaborada pelos enciclopedistas e apresentam a mesma positividade e os mesmo problemas. Na tentativa de informar o mais rápido possível, com o maior número de informação, a imprensa acabar por desinformar o interlocutor. A televisão e a internet despejam um conteúdo mesclado em que um fato histórico tem relação com a novela que por sua vez tem relação com um filme e assim por diante, misturando realidade cotidiana com uma realidade fabricada, ficcionalizada.

Refiro-me a internet e a televisão em especial porque são os meios em que esse processo está mais avanço, e consequentemente, mais visível. Na internet, a enciclopeditização da informação ganhou proporções inimagináveis, quer dizer, pensadas sim pelos primeiros enciclopedistas que acreditavam ser possível a racionalização da memória. Hoje um simples clique no mouse, permite que o interlocutor, ou leitor (como referir) pule diretamente para aquela outra referência, e assim por diante, num processo quase infinito de busca e cruzamento de informações aparentemente dispares ao primeiro olhar.

Possibilidades infinitas de ligações, links, assuntos em um tempo proporcionalmente pequeno. O Google faz isso, acumula informação e num simples “enter” páginas e mais páginas aparecem sobre o assunto e suas relações. As informações, assim como eram nas enciclopédias, estão ali para serem pesquisadas, cabe ao internauta interpretá-las e perceber os limites de sua pesquisa, caso contrário, uma informação sobre golfinhos, por exemplo, pode ir parar no passeio da Xuxa a um parque aquático.

A tecnologia, mais especificamente a informática, dá à sociedade a imortalidade tanto buscada, acumula a memória que há tanto tempo é perseguida. A máquina consegue atingir a quase perfeição no acumulo, registro, ligações e transmissão de informação. A memória é a força motora social. Para Nietzsche, ela é o poder social, que também nos separa dos outros animais e de si mesmo, Michel Foucault também afirma isso quando argumenta dizendo que o saber/conhecimento é uma forma de poder. A memória está estritamente ligada ao acumulo de conhecimento, é por meio dela que o homem tenta se tornar imortal fazer-se lembrar. Embora nossa mente guarde muita informação, não fomos “organizados” para isso, não superamos um computador ou o Google que possui uma infinidade de rede de relação entre assuntos. Somos limitados, o Google aparentemente não!

A idéia de disponibilizar o maior número de informação no site faz-se crer que todo o conhecimento mundial está a nosso alcance, na tela do computador. Esse pensamento faz surgir frases que refletem a abrangência do site: “o que vai acontecer, só Deus e o Google sabe”, “Deus sabe de tudo, está em todos os lugares, portanto Deus é o Google”, “Se não está no Google é porque não existe”.

É como inicio o texto, tudo que a humanidade precisa saber está no Google?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Aviso: texto descartável

Por Fabiana Nanô 05007458

Talvez pela data, um tanto tardia, meu “post” é publicado depois dos da maioria de meus colegas. Eu poderia tirar vantagem dessa posição privilegiada e “dialogar” com diversos textos “escritos” abaixo. A aparente natureza democrática da internet permitiria essa “conversa”. Mas a verdade é que, depois de ler seis ou setes páginas do blog, cansei. Minha mente já não processava mais tanta opinião, tanta informação. Se continuasse, eu não conseguiria produzir o meu próprio texto.
Tampouco conseguiria dialogar com os outros “posts”. Ao conhecer a opinião de todos os meus colegas, não conheci nenhuma. Ok, talvez uma ou outra tenha me chamado a atenção, mas porque eu já tinha feito uma prévia reflexão, fora do espaço da internet, sobre o assunto. O diálogo virtual é impossível. O blog é, por excelência, o espaço onde todos colocam suas opiniões e não se chega a lugar nenhum.
É infrutífero, contraproducente, desumano, saber tudo. A Internet, assim como a sua irmã mais velha Enciclopédia, não passam de ferramentas desumanas criadas por seres humanos. E qual a finalidade? No caso da enciclopédia, enquadrar todo o conhecimento em um espaço reservado e imutável? Tal projeto já nasce fracassado por vários motivos. Citarei dois. Em primeiro lugar, o conhecimento muda a todo momento. E, segundo, o fato de selecionar o que irá ou não para a enciclopédia indica um recorte, e não uma totalidade. (Na minha opinião, isso é ótimo, os recortes não são apenas necessários, mas vitais.) Diderot e D’Alembert conheciam estes problemas inerentes ao projeto da Encyclopédie, porém não deram o braço a torcer. Eram, antes de tudo, iluministas.
A internet, aparentemente, veio para preencher tais lacunas. O conhecimento guardado na rede atualiza-se em tempo real e pode ser visto e modificado (acrescentado) por qualquer pessoa, em qualquer lugar. Repito: aparentemente. Pois, assim como a enciclopédia, a internet já mostra-se um fracasso neste aspecto.
Primeiramente, pela questão do próprio conhecimento. O internauta que entra na rede sem saber previamente o que procura acabará perdido, sem rumo, passando de um site para outro, lendo várias opiniões sem chegar a nenhuma, completamente esvaziado de sentido.
Existe, além disso, uma questão de caráter político e econômico: quem tem acesso à internet? Os miseráveis, os excluídos? Eles finalmente ganharam voz? Acredito que não. A rede é usada como mais um instrumento de concentração de poder. Engana-se quem acredita que Facebook, Twitter e Wikipédia são espaços democráticos. Pelo contrário, são muito bem controlados por corporações nada virtuais.
Além disso, tanto a enciclopédia quanto a internet foram criadas pelos e para os países ricos, detentores das tecnologias mais avançadas. A enciclopédia é filha do Iluminismo e da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O projeto, apesar de ser fruto de escolhas feitas por homens de um dado contexto, se declarava universal. A internet, por sua vez, se diz democrática. Porém, é um espaço repleto de filtros e controlado por megacorporações norte-americanas, em sua maioria.
É preciso ser muito esperto para usar a rede virtual da maneira que melhor lhe convém. É um espaço pouco transformador que nunca vai substituir a conversa entre amigos, o olho no olho. O contato humano segue fundamental para a sobrevivência, assim como a memória imperfeita segue essencial para a construção do sentido.
Poderia, agora, transportar o debate sobre a contenção do conhecimento para o jornalismo e criticar o excesso de informação que nos leva a não refletir. De fato, não refletimos. “O que fazer?”, é a pergunta que me vem à cabeça. Infelizmente, ainda não tenho resposta.
Por isso, agora me contento em publicar esse texto, sabendo que, quando for postado, será mais uma opinião no meio de outras tantas. O que, antes, era uma opinião minha, toda especial, vai virar uma opinião banal. Sei também que bastará um clique no meu mouse para que o artigo apareça no blog e, da mesma forma, um clique no mouse do professor para que seja deletado para sempre. Quanta banalidade! Que situação deplorável, ou melhor, descartável! (Ao menos resta a sensação de “missão cumprida”, de texto feito e entregue.)

O mundo a um clique

Li alguns dos artigos desse site antes de tentar bolar o meu próprio. Notei que grande parte deles traçava um paralelo entre os textos de Paulo Serra, Olga Pombo e Antonio Honfeldt, e terminava em análises sobre como a rede mundial de computadores se mostra como um ambicioso projeto de arquivar e fornecer todas as informações ao acesso de um clique -- o que pode não dar certo, visto que a quantidade de informações no ambiente online é tão grande e infinita que acaba por perder seu valor.

Paulo Serra, em Informação e sentido, aborda essa questão de forma clara: “Grande parte dos teorizadores da "sociedade da informação" - que partilha, com os iluministas, da crença otimista de que o conhecimento tem um caráter auto-formador e emancipatório -, tende a pensar que mais informação leva, necessariamente, a um acréscimo de conhecimento. No entanto, e a acreditarmos em autores como Postman e Baudrillard - que podemos considerar, neste aspecto, como paradigmáticos -, o acréscimo de informação não só não acarreta um acréscimo de conhecimento como conduz, mesmo, ao seu decréscimo; assim, e para citarmos a conhecida fórmula de Baudrillard, "estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido", em que a "inflação da informação" corresponde uma "deflação do sentido"”.

Jorge Luis Borges, no conto Funes, o memorioso, já prevê o que esse excesso pode trazer. O homem que possui a maior memória do mundo vive isolado; ele grava e recorda, mas nem sempre consegue pensar, por não ser capaz de selecionar o que deve ser lembrado e o que deve ser jogado fora.

Dez anos atrás, o termo internet era quase desconhecido para a grande maioria das pessoas. Hoje, ela se tornou uma ferramenta poderosa e mundialmente conhecida e utilizada, com uma coleção absurda de serviços e pesquisas, capaz de conectar pessoas de um lado a outro do globo em poucos segundos. Existe hoje um excesso de informação sobre praticamente qualquer assunto, onde quer que se possa acessar a internet. É como se cada um de nós tivesse acesso a um Funes, o Memorioso, que pudesse ser consultado quando bem quisermos. A rede mundial deixou de ser apenas uma longa coleção de páginas; hoje ela envolve quantidades incalculáveis de informação com dados, imagens, vídeos, músicas, textos, artigos, resumos, coletâneas, livros, blogs, enciclopédias virtuais --- para citar alguns dos recursos de que ela dispõe.

Das centenas de milhares de maneiras de compartilhar informação na internet, pego como exemplo uma parte significativa dela: os blogs (ou em estrito senso, um weblog, ou fotolog, ou blog, ou registro, ou diário on line). Os blogs têm uma história tão antiga quanto a internet. Em 1999, contavam-se algumas dezenas deles; hoje, são milhões.

A explicação desse aumento tão significativo foi dada pelo criador da primeira ferramenta que possibilitou seu sucesso: Andrew Smales, que lançou o pitas.com alguns meses antes do surgimento do blogger, em 1999. Disse Smales que “as pessoas gostam de se intrometer na vida alheia. Ler outros blogs é uma forma de voyerismo. Ter seu blog vistado, uma forma de exibicionismo”. Mas independente de entendermos a fórmula de seu sucesso, faz-se mister reconhece-lo como uma forma alternativa de jornalismo. Isso devido a uma razão histórica muito importante: nunca antes foi possível a uma só pessoa escrever, editar, diagramar e publicar seu próprio produto editorial – e ser lido por um público de milhares de pessoas – gastando entre nada e 100 dólares por ano. Nunca antes surgiram tantas pessoas dispostas a fazer jornalismo sem passar por uma redação. Claro que muito do que vemos como notícia - nessa mídia especificamente – não passa de tentativas infecundas de despejar verdades, crendices e valores sem fazer jornalismo de verdade. Ou seja, sem apurar, sem checar, sem avaliar. Mas existe, para nossa sorte, muita gente fazendo jornalismo. E bom jornalismo.

Quanto mais segmentado e mais específico, possivelmente melhor será a cobertura de determinado fato, e mais pontos esse blog vai ganhar em relação à concorrência de jornais e revistas, por exemplo. A verdade é que se os veículos de comunicação e os jornalistas mudarem a maneira de produzir as histórias e trouxerem o leitor não para a confortável situação de receptor de seus conteúdos, mas de co-partícipe de seus esforços jornalísticos, poderão informar melhor.

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O jornalista Matt Welch, em artigo para a Columbia Journalism Review, afirma que cada novo fenômeno no mundo das publicações é precedido por um grande avanço na tecnologia de impressão. A Renascença, desse ponto de vista, garantiu os tipos móveis de Guttenberg (com isso, a Bíblia foi impressa em larga escala). Formas mais baratas de papel de imprensa são precursoras do jornalismo popular de Pulitzer e Hearst. Pode-se dizer que o hipertexto seria o sonho dos criadores da enciclopédia francesa de 1750?

A idéia dos pensadores iluministas Diderot e D’Alembert era não só reunir todo o conhecimento da humanidade em uma mídia impressa, mas também catalogá-lo segundo critérios científicos. A enciclopédia dos iluministas encontrou diversos obstáculos, entre eles a dificuldade para atualizá-la, uma vez que era um processo bastante dispendioso realizar novas pesquisas e novas edições periodicamente. Além disso, havia um lapso significativo de tempo entre a pesquisa da informação e sua consulta, ou seja, parte das informações inevitavelmente se desatualizaria. Com a revolução tecnológica vivida na segunda metade do século XX, o antigo projeto dos enciclopedistas do Iluminismo ganhou novo fôlego.

A grande vantagem da internet é a falta de fronteiras, é o espaço infinito disponível nessa mídia. O hipertexto, ou seja, o reenvio virtual entre todos os conceitos e endereços dos servidores de internet do mundo, é ilimitado. Cada palavra e cada conteúdo pode estar interligado a milhares de outros, e só o que precisamos fazer é dar mais um click na tela.

No texto “Enciclopédia e Hipertexto, O Projeto”, Olga Pombo defende que o hipertexto “é o limite ideal da enciclopédia, isto é, a de que a relação entre as diferentes formas de organização da totalidade do patrimônio cognitivo de uma época (enciclopédia) e as técnicas de reenvio virtual entre todos os conceitos ou todos os endereços conservados nos servidores de todo o mundo (hipertexto) é mais fundamental do que aparece de forma imediata”. O hipertexto desafia o ideal textual e renova as medidas antiquadas, mas gera desorientação, sobrecarga, banalização e indiferenciação dos conteúdos vinculados, o que expõe problemas de legitimação e credibilidade. Afinal, como podemos confiar no que lemos na internet, se qualquer pessoa no mundo pode ser responsável por aquele conteúdo?



por Thais Cortez